Sem a pretensão de participar do Livro dos Recordes!

6551C-10 6551 (Sempre coube mais um...)

Data: 25 de fevereiro de 1973

Aeronave: CA-10A FAB 6551

Trecho do “recorde”: de Tapauá para Manaus, no Estado do Amazonas

Tripulantes: Cmt. – Cel. Av. Almerindo SANCHO

                    1P – 1º Ten. Av. Selmar Luiz ALTOMAR

                    1Mec – 2S QAV Kiyochi SAITO

                    2Mec – Ah… memória! 

                    1RT – Ah… memória!

                    1RT – 3S QRT VO João ALFREDO de Oliveira

Na corrida para a descolagem da foz do rio Tapauá (afluente do Purus), os dois motores acelerados até a potência máxima, o avião muito pesado não teve diminuído o atrito do casco com a água suficiente para ganhar velocidade e descolar. A descolagem foi abortada, já com os flutuadores recolhidos. A ponta de uma das asas tocou na água, danificando parte do aileron. Subimos na asa, debaixo da chuva leve que caía naquele momento, e verificamos o pequeno estrago causado pelo impacto da água na tela do aileron. Foi decidido pelo 1º Mecânico, com a anuência do Cmt. da Tripulação, prender, com arame de freno, uma lima comprida existente na sua caixa de ferramentas, a fim de realinhar, com a ponta da asa do avião, a parte do aileron danificada pelo impacto da água.

Partimos para a segunda tentativa!

Avião direcionado no leito do rio; motores acelerados até a potência máxima durante cerca de uns dois minutos, os pilotos agarrando o manche com as duas mãos, com enorme esforço, para mantê-lo puxado e colado ao peito, fez com que o CATALINA levantasse o nariz. Aliviada a pressão que era exercida sobre o manche para trás, a aeronave “subiu no degrau”, deslizando sobre a água e singrando-a apoiado apenas na quilha, ganhou mais velocidade e descolou.

Comemorei o salto que deu, deixando a água. Finalmente, estava voando! Rapidamente, chamando o Centro de Controle Manaus, confirmei a hora da nossa partida, cujo plano de vôo já tinha enviado enquanto a aeronave fazia o táxi dentro d’água procurando a melhor direção para a decolagem.

Era a última etapa daquela missão – a LR 1-05 – Purus, conhecida como “Viagem da Fome” porque, quando saíamos de Manaus/AM, na ida para Rio Branco/AC, era fornecido um lanche muito fraco, insatisfatório para sustentar as energias na jornada que terminava só no fim do dia. O café do rancho da Base Aérea de Manaus, colocado em garrafas térmicas comuns, quando tomávamos o desjejum antes do nascer do sol, logo ficava frio. Ficávamos o dia todo dentro do CATALINA. Muitas vezes, no nível 20 (dois mil pés de altitude) nas etapas mais curtas, com a aeronave sacudindo e sob o calor e umidade altos, condições típicas da Nossa Amazônia. Tripulantes suando, molhando o macacão de voo, mas, mantendo o bom humor apesar do esforço desgastante. No regresso do Acre, quase sempre nada era obtido para comer durante a viagem. E, prosseguíamos o dia todo, pousando e decolando. Pouso no solo em Boca do Acre/AC, pouso n’água em Pauini/AM (margem esquerda do rio Purus) e em Lábrea/AM (quando a pista estava em condições favoráveis o pouso era em terra). Reabastecimento: puxando, com cordas, os baldes para a aeronave encostada na margem, nos quais o pessoal do “COMB/LUB” colocava a gasolina e o óleo retirados de tambores apoiados em flutuantes na beira do rio. Saindo de Lábrea, com combustível para alcançar Manaus e a localidade alternativa, o pouso era em Canutama – ainda no Rio Purus – e, depois, em Tapauá, de onde decolávamos para Manaus – destino final dessa rota.

Era muito comum o transporte de famílias inteiras nas aeronaves da FAB que faziam a rota do Rio Purus. Iam em busca de melhores condições de vida ou para tratar da saúde em cidades como Manaus, Rio Branco, etc. O deslocamento nos barcos pequenos e nas embarcações a motor demorava dias, semanas. Nem mesmo em Lábrea, considerada como cidade de melhores recursos, na região do Purus, existia médico para atendimento aos ribeirinhos. Era mais fácil pegar o avião da FAB e tentar a sorte em Manaus...

O Cel. Av. Sancho – humanitário e de muito bom coração – não teve dúvidas quando autorizou o embarque de todos os passageiros excedentes. Naquele dia, com muitas crianças e seus pais, decolamos de Tapauá com 65 (sessenta e cinco) pessoas a bordo do FAB 6551. Fui eu que conferi o “POB”, antes de enviar o “FPL” para o “ACCMN”, no desempenho das funções de 1º RT, designado pelo RT “antigão”, titular naquela missão, e que, desocupado de suas funções a bordo, certamente conseguiu um “cantinho” lá no compartimento posterior de passageiros.

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Abreviaturas:

“COMB/LUB” – Equipe encarregada do manuseio e controle dos combustíveis e lubrificantes para o reabastecimento de aeronaves.

“POB” – Abreviatura usada na radiotelegrafia de voo para significar o número de passageiros existentes a bordo da aeronave para a decolagem (People On Board).

“FPL” – Abreviatura usada na radiotelegrafia para indicar a mensagem de transmissão do Plano de Voo da aeronave.

“ACCMN” – Abreviatura de Centro de Controle de Área de Manaus.

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Sobre o Autor: João ALFREDO de Oliveira nasceu, em 07 de agosto de 1950, em Rio Branco/AC. Formado Sargento Radiotelegrafista de Voo (QRT VO) da FAB, pela Escola de Especialistas da Aeronáutica, em 1970, iniciou e encerrou sua carreira militar, servindo na Amazônia, durante 28 anos, no efetivo do 1º Esquadrão de Transporte Aéreo, em Belém/PA. Passou para a Reserva da Aeronáutica, em 1999, como Suboficial. É Advogado, diplomado pela Universidade da Amazônia – UNAMA, em 28 de janeiro de 1994. Foi um dos fundadores da Associação de Catalineiros, em 1989, em Belém/PA, e um dos responsáveis pela criação da Associação Brasileira de Catalineiros – ABRA-CAT, também em Belém/PA, em 17 de agosto de 2007, da qual foi o esteio na organização e no gerenciamento até 2015 quando deixou a Diretoria da mesma.

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