Nos meados de 1957, fui escalado para uma viagem, levando a bordo um General, oito Coronéis, e seis Tenentes-Coronéis para fazer inspeção nos Pelotões de Fronteiras do Exército Brasileiro na Amazônia.

Com muito orgulho afirmo que, tripulando os CATALINA – a “Pata Choca” – do 1º/2º GAv., levávamos civilização, saúde, alimentos, religião, fé, esperança, e patriotismo a todos os rincões da Hileia.

Decolamos  de Belém, às 06:00 horas local, no CATALINA PA-10 6517, fazendo escala em Santarém/P e chegando a Manaus/AM para pernoite. No outro dia, deveríamos  fazer Manaus, Porto Velho/RO, Guajará-Mirim/RO, Forte Príncipe da Beira/RO, e regressar para pernoitar em Porto Velho. Porém, devido a condições meteorológicas adversas, fomos obrigados a pernoitar em Forte Príncipe, sede do então 7º Pelotão de Fronteira.

PrincipedaBeira

A inesperada “hospedagem” da nossa tripulação e da comitiva de Oficiais colocou o Comandante do Pelotão em situação difícil, pois, o “regatão” com o suprimento do mês ainda não havia chegado, obrigando-o a nos servir salsichas de conserva com ovos e farinha na hora do jantar. Lá pela uma hora da manhã, senti fortes cólicas abdominais, procurei o sanitário e já o encontrei bastante concorrido... Decolamos para Porto Velho, às 07:00 horas local, e, ao atingirmos seis mil pés de altitude, voltaram as cólicas! Eu operava na Torre do Mecânico de Voo, pequeno espaço no pilone que unia a fuselagem às asas, onde eram realizados praticamente todos os controles dos motores e acionamento dos flutuadores, a comando do Piloto. Chamei o outro Mecânico de Voo – 2S MOIA – e pedi que me substituísse na Torre enquanto iria ao sanitário (no Compartimento G – do Túnel). Ele me disse que não seria possível porque havia fila para fazer o mesmo... Eu já estava muito “apertado”  e apelei para um “improviso” na caixa de lanche  que era de papelão. Já aliviado, chamei de novo o MOIA para jogar fora a caixa. Ele recusou porque já estava encharcando o papelão... Não tive outra saída, abri a janela de ventilação da Torre e lancei a caixa! Segundos depois, o MOIA puxa minha perna e diz que eu tinha jogado fezes em todo avião, inclusive no rosto do General porque o viu passar a mão na testa, cheirar, e dizer ao Coronel que estava ao seu lado  que na Amazônia chovia muito, mas, não sabia que a chuva tinha cheiro de fezes... Ocorreu que, quando lancei a caixa, a escotilha de ventilação da parte superior do Compartimento “E” estava aberta e a dita estourou ao bater nela! Ao pousarmos, em Porto Velho, tive que mandar lavar a fuselagem a partir da escotilha para não descobrirem a “desventura” e o General mandar me prender...

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Posição das citadas janelas de ventilação no PA-10...

Nessa Missão, a tripulação era integrada pelo 1º Ten. Av. FÁVERO, 2º Ten. Av. PINTO, 2S QAV MOIA, 3S QAV KIZAN, e 3S QRT VO CARLOS AUGUSTO. Vivo, e aos oitenta anos, só resto eu!

Carlos KIZAN Dias – Maj. Dent. Aer Refm

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Sobre o Autor: Carlos KIZAN Dias é Maj. Dent. Aer. Ref. e exerce suas atividades, como Odontólogo, em clínica de sua propriedade em Belém/PA. Formado 3º Sargento Mecânico de Voo (QAV) da FAB, pela Escola de Especialistas da Aeronáutica, em 1956, iniciou sua carreira militar e a concluiu, servindo na Amazônia. Pertenceu ao efetivo do 1º/2º Grupo de Aviação e do 1º Esquadrão de Transporte Aéreo, em Belém/PA, como Sargento QAV, e do Hospital de Aeronáutica de Belém, como Oficial Dentista. Passou para a Reserva da Aeronáutica, no Posto de Major.

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