Ele foi declarado Aspirante-a-Oficial Aviador em dezembro de 1948. Como Tenente já era considerado um profissional competente, bom Aviador, com cultura bem acima da dos seus pares. Era estudioso, educado, e nunca levantava a voz para alguém. Entretanto, as pessoas que o conheciam melhor achavam que ele sempre as olhava do andar de cima, com ar de superioridade...

No período de 1953 a 1955, era considerado um dos luminares da Instrução de Voo por Instrumentos da Escola de Aeronáutica , no Campo dos Afonsos/GB, por nós Cadetes. Aprendi muito sobre a matéria nas aulas que ele ministrou!

Posteriormente, voou o SA-16 ALBATROZ, aeronave anfíbia empregada nas Missões de Busca e Salvamento da FAB e orgânica do 2º/10º Grupo de Aviação (2º/10º GAv), sediado na Base Aérea de Cumbica, em São Paulo/SP. Essa aeronave, além de operar em rios e lagos, podia pousar em alto mar e sua manobrabilidade, na água, era facilitada pelo emprego do passo reverso dos seus motores.

Não se sabe quando nem onde um “gaiato”, talvez invejoso de suas qualidades, o apelidou de “DISCO VOADOR”, com o significado de ser “alto, chato, brilhante, e ninguém acreditar nele...”. Infelizmente, esse apelido pegou, em especial entre os Oficiais de menor Posto que não tinham simpatia por ele...

Como Major, foi servir no Quartel General da 1ª Zona Aérea, em Belém, e voar o CATALINA, aeronave que em relação ao SA-16 ALBATROZ podia ser considerada uma máquina simples e dotada de poucos recursos técnicos para operação. Com sua experiência de voo, foi simples e fácil adaptar-se à operação do CATALINA em pistas de pouso pavimentadas ou de terra.

Na fase da operação de hidroaviação as dificuldades surgiram... O “Vaidoso” culpava os seus Instrutores por não conseguir dominar completamente o CATALINA em suas manobras dentro d’água. Assim, o Instrutor mais antigo e, também, o mais experiente do Esquadrão assumiu a responsabilidade de ministrar-lhe os “macetes” do CATALINA na hidroaviação, tanto no treinamento na Baía de Guajará quanto nas viagens pelos rios da Amazônia. Esse Instrutor – Cap Av na época – era extremamente educado, de pouco falar e de pouco rir, e conhecia em detalhes não só as características de operação da aeronave, mas também, as idiossincrasias das hidropistas dos rios da Região.

Tiveram início as viagens de instrução de hidroaviação e a primeira foi uma Linha do Correio Aéreo Nacional da Amazônia (CANAM), com várias amerissagens em localidades ao longo do Rio Negro. Logo na primeira etapa, de Manaus para Tapurucuara, a pilotagem e o pouso n’água cabiam ao Major e tudo transcorreu normalmente, até a aproximação para a pegada da boia (*1)... Ali a forte correnteza do rio fazia com que o cabo da boia, impelido pela mesma, serpenteasse em movimentos aleatórios difíceis de prever e acompanhar.

O “Vaidoso” realizou quatro tentativas de aproximação para a boia sem que o Mecânico de Voo, na janela do Compartimento do nariz, conseguisse alcançar e puxar o ilhó do cabo para fixá-lo no cabeçote da aeronave e prendê-la.

O Cap Av, na posição de 2P (assento do lado direito da Cabine dos Pilotos), pediu permissão ao Major para tentar uma aproximação demonstrativa (já que a viagem era de instrução). Autorizado, posicionou a aeronave na direção do cabo serpenteante e, “blimpando” os motores (*2), à mínima velocidade e de forma que a extremidade do “rabo da serpente” – nesse caso o ilhó – numa das suas oscilações ficasse alinhada com a trajetória, aproximou-se o suficiente a possibilitar ao Mecânico de Voo puxá-lo e prendê-lo no cabeçote.

O Aviador, por mais experiente que seja, deve ter a humildade de saber continuar a aprender...

(*1) – manobra de marinharia na qual o piloto conduz a aeronave em direção a um cabo comprido, fixado numa extremidade a uma pequena boia – esta presa a uma pesada poita de concreto no fundo do rio – com um ilhó na outra extremidade destinado a prender o cabo num cabeçote cilíndrico removível e colocado, pelo Mecânico de Voo após a amerissagem, no lado esquerdo externo do nariz do CATALINA; o cabo era, normalmente, de piaçava e com cortiças para flutuação, intercaladas a cada metro de sua extensão; na parte central superior do compartimento do nariz, uma janela metálica abria para o exterior, permitindo ao Mecânico de Voo ficar de pé nessa abertura e, com o uso do croque (vara de alumínio com um gancho na extremidade), “fisgar” o ilhó do cabo da boia e encaixá-lo no cabeçote; após isso feito, sinalizava para o piloto que os motores podiam ser cortados.

(*2) – procedimento de marinharia no qual o piloto conduz a aeronave, com as manetes de potência ajustadas de forma a manter a direção desejada em função do vento e da correnteza existentes, cortando e religando os motores pelo acionamento da chave geral dos magnetos e, com isso, obtendo uma velocidade mínima da mesma.

Jonas Alves Correa

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Sobre o Autor: Jonas Alves Correa – Cel. Av. Ref. – Nascido a 21 de junho de 1933, em Cuiabá/MT. Formado Aspirante-a-Oficial Aviador, na Escola de Aeronáutica – Campo dos Afonsos – Rio/GB, em 20 de dezembro de 1955. Integrou o efetivo do 1º Esquadrão do 2º Grupo de Aviação (1º/2º GAV), em Belém/PA, de janeiro a março de 1957. Serviu na Base Aérea de Fortaleza/CE, foi Instrutor de aeronave B-26 Invader, no 5º Grupo de Aviação, em Natal/RN, e serviu nas Bases Aéreas de Campo Grande/MT e Brasília/DF, até ser requisitado, em 1966, para o Gabinete do Ministro da Aeronáutica, onde permaneceu até 1977. Foi Comandante do 6º Esquadrão de Transporte Aéreo (6º ETA), em Brasília/DF, no período de 1977 a 1979. Passou para a Reserva da Aeronáutica em 1981.

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