Nem jovem nem velho... Apenas antigo...

Que tenha sensibilidade para lidar comigo e compreenda minhas manias, pois já estive à beira do desaparecimento e fui ressuscitado – ou conservado – como dizem por aí...

Cada novo pedaço de tela, cada nervura, cada rebite, cada drone, representa cicatrizes dos lanhos de uma vida de voos, amerissagens e pousos, mais rangidos, estalidos e tendências deste meu corpo – ou fuselagem...

Meu piloto poderá falar quando quiser, mas, sobretudo, terá que saber escutar, ouvir e entender os sons que sou capaz de emitir: como o assobio do vento relativo nos meus montantes e estais; o ronco dos meus fiéis motores que, às vezes, espocam e tossem, com um bafo de fumaça negro-azulada.

Procura-se um humano que compreenda meus códigos, que talvez sejam mensagens diluídas pelo tempo e remanescentes de aviadores antigos que me conduziram, ou a outros iguais a mim.

Procura-se um aviador que não se importe com meu cheiro de dope, thinner, graxa e gasolina, também não se melindre quando eu o respingar de óleo.

O aviador que procuro deverá saber extasiar-se com minhas antiquadas bangornadas de asas em céu claro e com as nervosas corcoveadas, próximo aos CB, apenas alegres e espontâneos bailados, sem pretensão a aplausos ou troféus.
Deverá ainda saber usar a bússola e ler uma carta seccional, reconhecendo referências no terreno, curvas nos rios, compensando o vento e mantendo a rota, analisando as nuvens, sem precisar de mostradores elétricos ou eletrônicos.
Este piloto decerto apreciará as pistas de grama e cascalho, no meio de plantações, pastagens, nas estradas pioneiras, e as hidropistas fluviais ou na placidez dum lago...

O aviador que procuro sentirá felicidade infinita em me conduzir, de novo, ao fio d’água do Javari seco, para reverenciar o Pavilhão Nacional, orgulhosamente tremulante do mastro de quariquara na alta barranca do 4º Pelotão de Fronteira; ao espelhado esplendoroso da mansidão do Içana para a recepção carinhosa das freiras e dos índios da Missão Salesiana; à placidez da chegada no Lago de Tefé, e, a todos os rincões onde, juntos, compartilhamos momentos inesquecíveis, na Minha Amazônia e desse Anônimo Catalineiro.

Procura-se um aviador que tenha prazer de voar a qualquer hora, mas, preferindo decolar ao nascer do sol ou a conduzir-me nas luzes mágicas depois do sol poente.

Meu piloto será um saudosista por certo, sobrevivente do tempo em que um avião era uma aeronave e não um foguete com asas, recheado de automatismos.
Este piloto será tido como esquisito, pois, será reservado e escondido, com seus sismares, num surrado traje, talvez ainda hoje, manchado de óleo.

Será encontrado, junto com poucos iguais a ele, numa boa conversa de hangar ou, quem sabe, modernamente, em uma confraternização de churrascaria.

O aviador que vier por este anúncio será aquele que procure poesia no Amor à Aviação.
Procura-se este aviador raro, que tenha carinho por mim, a despeito de minha idade, e que, principalmente, não permita que lhe arranquem o romantismo do seu imenso coração!

Interessados dirijam-se ao HANGAR DA SAUDADE, no Campo dos Sonhos... – atual local físico: Hangar do 1º/2º GAv, na Base Aérea de Belém.

Procurar pelo CATALINA PBY-6A CA-10 6552!

6552 2007 

Texto original de autor desconhecido
Adaptação catalinasnobrasil.com.br

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RESPOSTA DE UM SAUDOSO AVIADOR EM JUNHO DE 2011

MEU CARO PBY CATALINA 6552
ACHOU UM!!!
 

Estou aqui, em Porto Alegre, retido pelas cinzas do vulcão chileno.

Cheguei num daqueles jatos holandeses, com duas turbinas e cheio de computadores.
Mas não me esqueci do tempo em que voava um contemporâneo seu, também veterano de guerra, a 
Flying Fortress B-17.

Ainda me lembro de como usar o derivômetro, e traçando linhas sinuosas e quase paralelas, observando montanhas e curvas de rios, ter uma ideia da direção do vento, tentando calcular a sua intensidade aproximada.

Lembro-me do nome de muitas estrelas, e de suas posições nas constelações: Beteugeuse, Belatrix e Duhbe, em Orion; Antares e Shaula em Skorpion; Crux e Acrux no Cruzeiro... E tantas outras que me auxiliaram a cruzar a Selva Amazônica ou encontrar os Penedos de São Pedro e São Paulo na vastidão do Atlântico. Eu admirava sua beleza, e com o sextante de bolha determinava suas posições, suas alturas e seus ângulos, em relação ao LHA de Áries...

Errava por apenas poucas milhas... Mas, sempre chegava ao meu destino...

Chegava a Manaus, em voos noturnos de apenas 11 horas, partindo de Recife, ou a Porto Alegre, em noitadas de 12 horas... Sempre de mãos enluvadas grudadas no manche, pois, piloto automático, nem pensar... Boné, macacão de voo e botas – por baixo camiseta, ceroulas e meias de lã, para enfrentar o frio a 12 mil pés de altitude... O café do camburão gelava com menos de uma hora de voo...

Não tive o prazer de pilotá-lo, meu caro PBY, mas, por diversas vezes pousei, em rios da Amazônia, com seu colega, o SA-16 Albatroz, em Missões de Busca e Salvamento, em apoio ao SH-1D, o helicóptero SAPÃO, que também voei.
Hoje, utilizo o INS - Inertial Navigation System, o GPS - Ground Positioning System, o MNS - Management Navigation System, e tantos outros eletrônicos que ao toque de um botão me fornecem informações precisas...

Mas não me corrompi com tantos computadores, telefones celulares,... Uso-os porque estão ali, a bordo...

Respondo a sua chamada, meu caro CATALINA... E fico ansioso para um dia poder estarmos juntos...

Felizmente, tenho boa memória e a minha vivência com essas heroicas garças – o T-6, o C-45, o C-47,... Jamais serão esquecidas.

Estou aqui, à sua disposição, apenas aguardando o seu VENHA...
Um abraço
Comte Luiz Coelho