Congratulo-me com os militares que tiveram a feliz lembrança de resgatar a promoção post-mortem de um grande aviador que teve a rara honra de morrer voando nas asas da nossa gloriosa Força Aérea Brasileira. Certa vez ouvi essa confissão do então Brigadeiro Camarão, aquele que foi o maior dentre todos os grandes Comandantes com quem tive a honra de servir na Região Amazônica: seu desejo era morrer em serviço, comandando aeronave da FAB. Não conseguiu, simplesmente porque era exímio piloto e não deu chance à bruxa. Por ironia do destino, sucumbiu a um ataque aéreo de enxame de abelhas africanas.
Sua Excelência – o Brigadeiro Elizeu Basílio de Oliveira Neto, quando Capitão, proporcionou-me grande ventura, em uma das raras viagens que tive a honra de com ele voar no CATALINA PBY-5A C-10 6525, do 1º Esquadrão de Transporte Aéreo (1º ETA), sediado na Base Aérea de Belém, realizando a Linha 11 – Purus do Correio Aéreo Nacional da Amazônia (CANAM), no período de 22 a 25 de maio de 1977. Na madrugada do dia 23, quando iniciaríamos a jornada de Manaus a Rio Branco, surpreendeu-me ao me mostrar o “goods” que adquirira na Zona Franca: tratava-se de um prosaico Multímetro Digital, fabricação japonesa. Desconhecia sua vocação para o ramo da eletrônica. Confidenciou-me que pretendia, durante a viagem, decifrar o manual de instruções daquele aparelho escrito em japonês.

O NetoO Capitão Aviador OLIVEIRA NETO

Providencial pane no motor direito do CATALINA, detectada no momento em que checávamos os motores antes de decolar de Lábrea (na confluência dos rios Purus e Acre/AM), com um dos magnetos apresentando variação de perda no entorno de 400 RPM, veio ao encontro de sua proposta de aproveitar o tempo, enquanto aguardaríamos o envio, por parte do 1º ETA, de outro magneto para substituição. Sabedor que eu era egresso do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) solicitou que o auxiliasse em seu aprendizado. Após algumas considerações sobre o comportamento dos elétrons em torno do núcleo atômico, já adentrando nos conhecimentos básicos da física quântica, notamos que o nobre Capitão desejava obter explicações mais práticas do que teóricas. Sugeri, então, ao Mecânico de Voo que nos “emprestasse” o magneto em pane, já retirado do motor, para testarmos o multímetro. Deixa estar que o Mecânico de Voo, cujo nome lamentavelmente não consta de minha Caderneta de Voo, não ficou muito satisfeito com a ideia. Todavia, militar exemplar que era, não tergiversou e tratou de nos emprestar “seu” magneto, com as ferramentas necessárias a sua desmontagem. Daí em diante, tratamos de checar o funcionamento do Multímetro japonês, mediante aferição da continuidade e resistência dos elementos constitutivos do magneto in comento. Constatamos que o aparelho adquirido pelo Capitão Oliveira Neto funcionava a contento, pelo que seu proprietário abriu largo sorriso de satisfação e, ao mesmo tempo, solicitou uma lixa ao Mecânico de Voo. Este, coçando a cabeça, tratou de atender a ordem recebida. Aí, o Grande Oliveira Neto iniciou meticuloso trabalho de “lixamento” dos bornes metálicos daquela peça avariada que era um dos corações do motor do CATALINA. Concluído o serviço, tratou de recompor a montagem do magneto e cuidadosamente o entregou ao Mecânico, determinando sua reposição no devido local e, em seguida, a execução do procedimento de novo cheque do seu funcionamento. Resultado, o motor direito do CATALINA funcionou como se recém-recebido do Parque de Aeronáutica dos Afonsos (Órgão apoiador de revisão e fornecimento dos motores PWR 1830-92, sediado no Rio de Janeiro). Melhor do que o esquerdo, em termos de variação das rotações, quase que imperceptíveis aos olhos e ouvidos apurados dos tripulantes. Confiante, o Capitão Oliveira Neto assumiu a posição de 1º Piloto e decolou de Lábrea com destino a Pauini (AM), com a preocupação de informar ao 1º ETA para cancelar o envio do magneto solicitado. O que foi um alívio para a Manutenção do Esquadrão, de vez que, tal providência ainda dependeria de requisição ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos, pois, não havia nenhum disponível no estoque. Assim, aquela missão do Rio Negro pôde prosseguir sem qualquer interrupção, malgrado alguns pousos n’água em seu decorrer, tudo devido à providencial aquisição de um prosaico Multímetro por um bravo piloto militar, desbravador da Amazônia.
Os anos se passaram e qual não foi meu espanto quando, em 25 de março de 1982, em viagem a serviço do Parque de Material de Aeronáutica de Belém à Base Aérea de Santa Maria/RS, encontrei, no Cassino de Oficiais, o bravo piloto da Amazônia, de japona, fazendo questão de levantar a barra de sua calça para mostrar que incluíra em sua vestimenta duas grossas ceroulas, mas mesmo assim, curtindo o maior frio da região serrana da Boca do Monte. Visivelmente, expelia fumaça pelos ouvidos, diante do desconforto de haver sido transferido para aquela Unidade de Fronteira, onde o diabo perdera suas botas. Por tal infortúnio, confidenciou-me considerar ter sido punido, sem saber a real motivação de seus superiores hierárquicos. Tentei consolá-lo, dizendo que, por aquela estratégica Base Aérea, já haviam passado alguns dos mais conceituados Oficiais da Força Aérea Brasileira. Mais deprimido ficou, entendendo que eu estaria ironizando a sua desdita.
Creio que agora, “numa boa”, em seu Lar Eterno, deve estar dando-me razão. Santa Maria da Boca do Monte foi o portal para prosseguimento de sua invejável carreira militar: mereceu ser promovido a Brigadeiro-do Ar justamente por morrer a serviço, no comando de uma aeronave militar da Força Aérea Brasileira.

Luiz Carlos Rodriguez Rodriguez – Cel Av Refm

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Sobre o Autor: Luiz Carlos Rodriguez Rodriguez, nascido em 07 de novembro de 1940, em Porto Alegre/RS, e hoje radicado em Belém/PA, é Coronel Aviador Reformado da Aeronáutica e formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Declarado Aspirante-a-Oficial Aviador, na Escola de Aeronáutica, no Campo dos Afonsos – Rio de Janeiro/GB, em 14 de dezembro de 1963. Pertenceu ao efetivo do Quartel General do 1º Comando Aéreo Regional (QG COMAR 1), sediado em Belém/PA, no período de 17 de janeiro de 1972 a 11 de fevereiro de 1981, nos Postos de Capitão a Tenente-Coronel. Foi Vice-Diretor do Parque de Material Aeronáutico de Belém, no período de 12 de fevereiro de 1982 a 18 de janeiro de 1984. Exerceu o cargo de Chefe de Gabinete do COMAR 1, no período de 25 de janeiro a 06 de junho de 1984. Em julho de 1984, foi designado Comandante da Base Aérea de Porto Velho, em Rondônia, passando a supervisionar o término de suas obras de construção e a implantar sua administração para inaugurá-la, em 31 de outubro do mesmo ano. Cumpriu Missões do CANAM como 1º Piloto em aeronaves CATALINA PBY-5A e CANSO A, DOUGLAS DAKOTA, e EMBRAER BANDEIRANTE. No dia 7 de julho de 1992, no posto de Coronel, concluiu suas atividades aéreas no comando do EMBRAER BANDEIRANTE C-95A 2286, em missão da Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Voo (DEPV), com pernoite na Base Aérea de Porto Velho que comandou e inaugurou. Totalizou 7.657hs05min de voo com 7.026 pousos, das quais mais de cinco mil voadas na Amazônia. Passou para a Reserva da Aeronáutica em 12 de janeiro de 1994. Em janeiro de 1996, foi designado pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (INFRAERO) para gerenciar as obras de modernização do Aeroporto Internacional de Belém.

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