No dia 24 de março de 1986, decolamos de Belém, no comando da aeronave EMBRAER Bandeirante C-95B 2319 do 1º Esquadrão de Transporte Aéreo (1º ETA), sediado em Belém/PA, para realizar a Linha 11 – Oiapoque, tendo como Copiloto o Tenente Aviador Nélson e o Mecânico de Voo cujo nome, lamentavelmente, não consta em nossa Caderneta de Voo. O primeiro pouso foi em Macapá, e, quando nos preparávamos para prosseguir a missão com destino a Amapá, recebemos mensagem do SALVAERO-Belém para realizar busca de um veleiro de bandeira francesa, que havia enviado pedido de socorro por haver sofrido avarias no eixo de seu motor, e se encontrava à deriva na foz do rio Amazonas. Decolamos de Macapá em direção à foz do rio Amazonas e, sem muita dificuldade, localizamos a embarcação encalhada sobre um banco de areia. Realizamos várias passagens baixas para demonstrar a seus tripulantes - um homem, uma mulher, e um cachorro - que os avistáramos, sem que pudéssemos manter comunicação-rádio, pois, supostamente, a bateria da embarcação teria se exaurido. Os tripulantes do veleiro, com acenos, demonstraram alegria por entender que o salvamento estaria próximo. Tratamos de comunicar ao SALVAERO-Belém a posição da embarcação avariada, aproximadamente, a sete quilômetros da foz do rio Macacoari (que nome engraçado: Macaco Ari!), e retornamos à Macapá para reabastecer e decolar com destino a Oiapoque, transportando carga e passageiros para o Pelotão de Fronteira do Exército Brasileiro ali sediado.

 

Foz Macacoari

Posição da Foz do Macacoari

Cancelamos o pouso em Amapá, previsto para a segunda etapa da missão, face ao adiantado da hora. Em Oiapoque, depois de desembarcados passageiros e carga, preparamos o retorno para Macapá, com pouso intermediário em Amapá, para atender ao apoio logístico daquela localidade. Antes de chegar a Macapá, onde pernoitaríamos, desviamos ligeiramente da rota para sobrevoar o veleiro encalhado. Fizemos dois sobrevoos no final de tarde e os tripulantes voltaram a acenar demonstrando, ainda, elevado moral de sobrevivência. No dia seguinte, cumpria-nos executar nova perna para Oiapoque, com pousos intermediários na ida e na volta em Amapá. Todavia, desviamos a rota para um novo sobrevoo com vistas a constatar o moral dos navegantes do veleiro. Houve necessidade de repetir as passagens baixas até que alguém aparecesse para dar sinais de vida. Somente o cachorro dava o ar de sua graça, desembarcado sobre o banco de areia na calha do rio Amazonas. Na quarta passagem que fizemos, o homem mal conseguia mostrar sua cabeça, dando-nos a ideia de já estar sem forças para demonstrar o vigor da tarde anterior. O que fazer? Cabia-nos tomar o rumo de Amapá para dar sequência a nossa missão. Fizemos contato com o SALVAERO-Belém para saber quais as providências que estariam sendo tomadas. Depois de algum tempo, fomos informados que a Marinha Brasileira estava tentando enviar um Navio de Patrulha Fluvial (NAPAFLU), baseado em Belém, para resgatar os ocupantes do veleiro. Temiam, entretanto, que seria difícil lograr êxito na missão, dado as condições de navegabilidade da região do encalhe, bem como, o tempo de, aproximadamente, dezenove horas que seria gasto para vencer a distância de 420 quilômetros à velocidade média de 12 nós (milha marítima/hora) do NAPAFLU. Constatamos a existência de um aglomerado de barcos pesqueiros, justamente na foz do rio Macacoari, a sete quilômetros de distância do encalhe, distância que não lhes permitia visualizar o veleiro avariado.

Vista Foz Macacoari

Imagem da Foz do Macacoari, então sem os barcos pesqueiros...

Foi aí que a Providência Divina nos lembrou de histórias de mensagens no interior de garrafas. De imediato, solicitamos ao Mecânico de Voo de nossa aeronave que esvaziasse três garrafas de água mineral, servidas no lanche de bordo da tripulação, e tratamos de desenhar croquis do local do encalhe e introduzi-los nos vasilhames, lançando-os depois às límpidas águas do Macacoari. As mensagens solicitavam aos pescadores que rumassem em direção ao barco encalhado para apoiar na missão de salvamento. De início, foi difícil fazê-los entender o que desejávamos! Os pescadores vibravam e acenavam com nossos rasantes, acreditando tratar-se de voos exibicionistas, enquanto que os passageiros a bordo vomitavam no avião. Graças ao Bom Deus, um pescador recuperou uma das garrafas com a mensagem e, na última passagem, nos sinalizou supostamente haver entendido. De certa forma, ainda preocupados se, efetivamente, os pescadores haviam entendido nossas preces, reiniciamos nossa missão com proa de Amapá, seguindo, após para Oiapoque e retornando, ao finalzinho da tarde, em rota inversa. Antes de pousar em Macapá, voltamos a sobrevoar o local do encalhe. Cadê o veleiro? E os tripulantes? E o cachorro? Ah! Estavam sãos e salvos na foz do Macacoari! Até o veleiro fora rebocado para voltar a navegar nas límpidas águas daquele “famoso” rio.
Não é que os pescadores macacoarienses entenderam a mensagem da garrafa? Graças a eles e ao Bom Deus os tripulantes franceses devem estar, até hoje, comemorando a vida deliciando-se com nossas lagostas!

COROLÁRIO DO AUTOR: Naquele tempo, quando uma embarcação estava preste a afundar nos mares da vida, o comandante, antes de abandoná-la, escrevia mensagem de socorro e a depositava numa garrafa vazia, lançada ao mar com a esperança de que alguém a encontrasse com disposição de salvar preciosas vidas. Quando tal ocorre, raros são os sobreviventes que reconhecem os obstáculos vencidos pela garrafa até chegar ao seu destino sem que sua mensagem interior fosse destruída, corrompida, deturpada, traída ou desviada.

Luiz Carlos Rodriguez Rodriguez – Cel Av Refm

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Sobre o Autor: Luiz Carlos Rodriguez Rodriguez, nascido em 07 de novembro de 1940, em Porto Alegre/RS, e hoje radicado em Belém/PA, é Coronel Aviador Reformado da Aeronáutica e formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Declarado Aspirante-a-Oficial Aviador, na Escola de Aeronáutica, no Campo dos Afonsos – Rio de Janeiro/GB, em 14 de dezembro de 1963. Pertenceu ao efetivo do Quartel General do 1º Comando Aéreo Regional (QG COMAR 1), sediado em Belém/PA, no período de 17 de janeiro de 1972 a 11 de fevereiro de 1981, nos Postos de Capitão a Tenente-Coronel. Foi Vice-Diretor do Parque de Material Aeronáutico de Belém, no período de 12 de fevereiro de 1982 a 18 de janeiro de 1984. Exerceu o cargo de Chefe de Gabinete do COMAR 1, no período de 25 de janeiro a 06 de junho de 1984. Em julho de 1984, foi designado Comandante da Base Aérea de Porto Velho, em Rondônia, passando a supervisionar o término de suas obras de construção e a implantar sua administração para inaugurá-la, em 31 de outubro do mesmo ano. Cumpriu Missões do CANAM como 1º Piloto em aeronaves CATALINA PBY-5A e CANSO A, DOUGLAS DAKOTA, e EMBRAER BANDEIRANTE. No dia 7 de julho de 1992, no posto de Coronel, concluiu suas atividades aéreas no comando do EMBRAER BANDEIRANTE C-95A 2286, em missão da Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Voo (DEPV), com pernoite na Base Aérea de Porto Velho que comandou e inaugurou. Totalizou 7.657hs05min de voo com 7.026 pousos, das quais mais de cinco mil voadas na Amazônia. Passou para a Reserva da Aeronáutica em 12 de janeiro de 1994. Em janeiro de 1996, foi designado pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (INFRAERO) para gerenciar as obras de modernização do Aeroporto Internacional de Belém.

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