No período de doze de janeiro a vinte de fevereiro de 1968, participei do Projeto Rondon junto à Missão Salesiana de Cará-Poço, no Alto Rio Negro, à margem do rio Içana – Estado do Amazonas, então administrada pelos Padres Salesianos Ezequiel e Luciano. O percurso de ida, de Manaus até a Missão Salesiana no rio Içana, e a volta de Uaupés para Manaus, fizemos a bordo de aviões CATALINA da Força Aérea Brasileira. Compartilho parte do meu relatório desta viagem realizada a bordo do CATALINA CA10 6521 que, durante o percurso, teve uma pane na bomba de gasolina de um dos motores e, em 08 de fevereiro de 1968, acidentou-se, caindo na selva amazônica, próximo ao Real Forte Príncipe da Beira, em Rondônia/AM, antes de nos levar de volta para Manaus como estava programado.

18 Jan. 1968 (Quinta-Feira)
Cedinho, fomos ao aeroporto de Ponta Pelada (Manaus) para embarcar no CATALINA CA-10 6521 da FAB que levaria cada integrante do Projeto às localidades, ao longo do Alto Rio Negro, nas quais prestaria seus serviços.

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Aguardando o embarque, em Ponta Pelada – Manaus/AM

Meu destino e o de meu colega Gustavo – estudante de Medicina do Rio de Janeiro – era a Missão Salesiana de Cará-Poço (Nossa Senhora da Conceição) às margens do rio Içana, afluente do Uaupés. Saímos do aeroporto de Manaus, às 6h30min, mortos de sono das festinhas do dia anterior, e a aeronave se moveu lentamente, mas sempre... Amerissamos em Barcelos, no rio Negro, antiga capital do Estado do Amazonas.

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Saindo de Barcelos, seguimos o Rio Negro, e pousamos em Tapuruquara (Vila de Santa Isabel do Rio Negro). Decolamos de Tapuruquara sem maiores problemas até o instante de recolher as rodas. O sistema estava emperrado e fomos obrigados a aterrissar novamente. Durante o conserto do trem de pouso parte dos passageiros pegou no sono.

VARN 4Vista aérea do aeródromo de Tapuruquara: pista asfaltada de 1200mx22m, construída pela Comissão de Aeroportos da Região Amazônica (COMARA) e inaugurada em dezembro de 1999 (Foto de 2005); em 1968, a pista era de terra (piçarra), também construída pela COMARA e inaugurada em 1967.

Normalizada a situação, seguimos para Uaupés, na base da cachoeira de Camanaus – no rio Negro, onde amerissamos.

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O CATALINA se aproximou do flutuante e foi amarrado ao seu lado.

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Habitantes locais vieram de barco ao nosso encontro, trazendo viandas com comida quente para a tripulação. Como consolo, nos fartaram com banana e bolacha. O flutuante carregava gasolina em tambores de 200 litros para abastecer a aeronave. A gasolina foi bombeada para dentro dos tanques da aeronave, utilizando uma bomba manual. De Uaupés, voamos para a Vila Taracuá, no Baixo Rio Uaupés – confluência com o rio Tiquié, onde amerissamos com trombadas do avião na água, devido a rajadas de vento.

VARN 7Em Taracuá, recebendo passageiros

Finalmente, voamos, então, para Cará-Poço no rio Içana. O piloto teve que dar várias voltas no ar para estudar a “pista” e evitar bater nas pedras submersas do rio. As áreas mais escuras do rio denunciavam a existência de pedras que ficam semi-submersas durante o período das cheias. O piloto fazia pela primeira vez esta rota. Os rios da nascente estavam em época de cheias, boas para pescaria, mas, perigosas para o pouso dos CATALINAS. Nosso sobrevoo e a “aquaplanagem” assustaram o Padre da Missão Salesiana que já aguardava nossa chegada. Apesar da apreensão, desta vez, o nobre voante amerissou de forma bastante suave, no rio Içana, compensando as trombadas de Taracuá. Estávamos completamente isolados do resto da civilização, nem comunicação-rádio, nem telégrafo. Somente cartas eram enviadas e recebidas quando, de tempos em tempos, desciam os CATALINAS que vinham buscar ou trazer de volta doentes que tinham que se tratar em hospitais de Manaus. Uaupés, a vila de maiores recursos, ficava a um dia de viagem de barco a motor...
Eram 16hs quando chegamos a Cará-Poço. Fomos recebidos pelo Padre Luciano, que respondia pelo Padre Ezequiel – responsável pela Missão desta localidade. A imagem da Missão Salesiana de Cará-Poço e seu reflexo, nas águas do rio Içana, era cinematográfica.

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Fomos alojados em um dos quartos do antigo internato e, ao acordarmos, fomos brindados com um magnífico nascer do sol e a cena deslumbrante da mata espelhada nas águas do rio Içana.

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Ganhei duas zarabatanas e um pote com curare. Na foto abaixo eu estava colocando curare na ponta da flecha.

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08 Fev. 1968 (Quinta-Feira)
Este foi um dia realmente agitado... Na parte da manhã, corri a terminar duas fossas que abrimos para uma família de nativos. À tarde, entrevistamos José Maria, o “tubarão” da localidade. Em seguida me toquei sozinho para a “fortaleza” (conjunto de enormes pedras na margem do rio). Eu queria, a toda força, chegar perto do “pari” (armação de bambu para pegar peixes) que estava encravada nas pedras à beira do rio. Tentei, desta vez, aproximar-me pelo lado oposto, pulando de pedra em pedra. Cheguei até certa altura e não foi possível continuar... Próximo ao “pari” as pedras estavam muito espaçadas. Consegui chegar até uma enorme pedra suspensa que, apoiada não sei como, formava uma espécie de gruta. Quando me aproximei um enorme morcego saiu voando e outro ficou dando voltas lá dentro. Voltei e tentei chegar no “pari” de outro jeito... Costeei a “fortaleza” por entre uma vegetação baixa até me encontrar por cima do “pari”. Desci, então, por entre aquele emaranhado de cipós. A certa altura fui atacado por formigas. Mandei-me morro abaixo e dei em cima do bendito “pari”. Esta foi a foto mais difícil que consegui tirar durante a viagem!

VARN 20A foto mais difícil! E, uma das mais bonitas...

Fui então costeando a beira do rio e batendo fotos bem interessantes como a de um “menino de Uaupés” que, apesar da intensa correnteza, fica nadando e brincando no rio sem maior preocupação da mãe, bem como, a foto de uma armadilha “cacuri”, destinada a pegar peixes e cujo formato coincide com o da anatomia feminina.

VARN 11VARN 12

Chegando ao local onde costumávamos tomar banho, encontrei meus colegas e fomos andar de canoa. A esta altura eu já estava bem treinado e habilitado a andar nestes troncos de árvore entalhada – de remar na direita para guinar à esquerda e vice versa. O Capitão Machado nos trouxe a notícia sobre a provável queda de um CATALINA da FAB. Os tripulantes teriam comunicado à Torre de Controle do aeroporto que tinham alijado a carga por parada do motor. O CATALINA CA-10 6521 acabou caindo a cinco metros da pista do aeroporto. Pelo rádio os controladores de voo teriam escutado o sinal contínuo da transmissão radiotelegráfica, característico do avião em queda que cessa ao se chocar com o solo. Este CATALINA era o mesmo que nos levou de Manaus até Içana e estava programado para nos buscar, em Uaupés, na volta para Manaus. Continuamos à beira do rio quando nos foram servidos cocos e garrafas com cachaça de cana de açúcar. Tínhamos planejado uma “saideira” à beira do rio. Ficamos até a meia noite a tomar cana em coco, utilizando as cânulas de soro, esterilizadas, para curar o fazer nada. Aos poucos fomos tirando a roupa e nos jogamos na água. Fui o primeiro a dar um mergulho, novamente sem pensar na eventual existência de cardumes de piranhas. A lua, mesmo minguante, iluminava perfeitamente a praia – cena de cinema. A turma estava bem enfezada e, por pouco, não entraram com o violão na água...

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Imagem do maravilhoso local da “saideira”...

Hoje confirmamos nossa viagem rio acima. O pessoal iria vacinar os habitantes de uma localidade acima da Ilha das Flores. Isto, providos pelo interesse de assistir o famoso “Dabucuri” e de comprar enfeites artesanais dos nativos. Sairíamos no dia seguinte depois do meio dia. Aqui em Uaupés os nativos não manufaturavam mais aqueles enfeites típicos, somente rio acima. Quanto mais para a nascente, mais naturais são os nativos.

09 Fev. 1968 (Sexta-Feira)
Foi-nos confirmada a queda do CATALINA CA-10 6521, em Rondônia, e que tinham iniciado as buscas. O Radiotelegrafista do avião viajou conosco quando viemos para Cará-Poço e descemos no rio Içana. Este mesmo avião estava programado para nos buscar ao término da nossa missão e nos levar até Manaus. Lá pelas 11hs as nuvens se afastam deixando transparecer nesgas de céu e enchendo a terra de luz. Era a primeira manhã com céu descoberto que passei no Amazonas. Estávamos no período de chuvas que se estende de dezembro a junho. Geralmente as manhãs são brumosas. À tarde o calor é intenso, pouco suportável, apesar de nos encontrarmos em pleno “inverno”. Conforme combinado no dia anterior, saímos de barco logo após o almoço. O barco tinha um motor Johnson, de 28 HP, que conseguia movimentar rapidamente o seu casco de 10m de comprimento por 1,30m de largura. Já antes da Ilha das Flores o céu se cobriu novamente de nuvens de uma hora para outra e a chuva desabou forte. O prático Aglair quase morreu de frio. Teve que ficar na proa a fim de orientar o timoneiro por entre as pedras. O restante do pessoal tentou abrigar-se no pseudo teto da lancha (uma cobertura com folhas de árvore). Tive que colocar minha capa de chuva de nylon, pois, estava num lugar desgraçado. Três nativos já tinham seguido na frente, no dia anterior. Eles iriam reunir a população local de Murabi e também preparar um “dabucuri”. Com barco cheio, chuva e contra a correnteza, levamos cinco horas para fazer um percurso que, normalmente, é feito em duas horas e meia. Chegamos ao escurecer à casa de Titão e quem disse que o encontramos... Todos haviam fugido para os igarapés ao aviso de nossa chegada. Não tinham conseguido preparar nada do que prometeram... A comida estava escassa. Dormimos na mesma casa na qual dormíramos quando da vinda de Içana a Uaupés. Espichei bem a rede para diminuir a dor nas costas...

10 Fev. 1968 (Sábado)
Desta vez, o café da manhã foi de somente duas bananas Aos poucos, os nativos da localidade foram chegando para serem vacinados. Os que deviam ter preparado a festa não apareceram... Certamente ainda estavam entocados em algum igarapé. Vacinamos 65 pessoas. Acabei jogando clica com uns curumins e troquei um par de meias por um pião. Depois, iniciamos a viagem de volta.

VARN 13Última lembrança como despedida da Missão Salesiana de Cará-Poço

A viagem foi bastante rápida. Paramos novamente na Ilha das Flores e, ao meio-dia, devoramos o ragu de uma lata de conserva que sobrara, mexido com farinha e ovos. Chegamos de volta à Uaupés, às 14hs, com a pele tostada pelo sol e famintos. Por incrível que pareça, mesmo a esta hora da tarde, nos serviram o almoço... As 17hs fomos tomar banho de rio. Na volta nos comunicaram que, na queda do CATALINA CA10-6521, tinham morrido quatro pessoas: uma recém-nascida, uma menina de sete anos, e dois soldados, das 27 pessoas que lotavam o avião. Ao todo, no entanto, cinco pessoas teriam morrido, segundo registro que pode ser verificado no website http://www.catalinasnobrasil.com.br/:
ACIDENTE COM AERONAVE CA-10 6521
Acidentado, em 08/02/1968, durante cumprimento de viagem da Linha LPA-6, quando voava de Guajará-Mirim/RO para Forte Príncipe/RO, caindo na selva amazônica, em área próxima do Real Forte Príncipe da Beira, local sede do então 7º Pelotão de Fronteira do Exército Brasileiro, tendo como tripulantes:
1º Tenente Aviador Lauro Eduardo de Souza Pinto
2º Tenente Aviador Jadir Campos de Albuquerque
2º Sargento do Quadro de Avião Ferdinando Duarte Ogorogdnik
2º Sargento do Quadro de Avião Almir Prata Machado
3º Sargento do Quadro de Radiotelegrafista de Voo Raimundo Corrêa Genu
3º Sargento do Quadro de Radiotelegrafista de Voo Genderson Portela
No acidente faleceram dois Soldados do Exército Brasileiro e três crianças, que viajavam como passageiros da aeronave.”
Mais tarde, nos informaram que o nosso avião chegaria no dia seguinte. Faria, antes, a Linha LPA-2 e, depois, nos levaria de volta a Manaus. À noite, mais um violento arrasta-pé...

12 Fev. 1968 (Segunda-Feira)
Cedinho, 15 km até o aeroporto e cinco horas de pé esperando a partida do voo para Manaus. As 8h30 embarcamos no avião e nos despedimos de Uaupés. Descemos em Tapuruquara para recolher três moças e dois rapazes do Projeto Rondon. Um deles se chamava Ayala, cantor boliviano que tirou o 5º lugar no Festival Internacional da Canção. Ao sairmos de Tapuruquara, deu pane na boia de gasolina. Os tripulantes improvisaram uma boia, cortando uma madeira com minha faquinha. A viagem seguiu tranquila, somente as moças do projeto deram para fazer fiasco. Vomitaram direto. A que sentou ao meu lado mantinha o travesseiro no rosto para diminuir o medo... Chegamos ao aeroporto de Manaus, depois de apanhar mais integrantes do Projeto em Barcelos. A turma que recolhemos no caminho estava toda formada de parzinhos enamorados. Projeto Rondon virou agência matrimonial! Em Manaus, fomos hospedados no 27º Batalhão do Exercito. Saímos para dar uma volta no centro de Manaus...

15 FEV. 1968 (Quinta)
Chegados ao Rio de Janeiro, vindos de Brasília, fomos alojados na Escola Naval do Leme. De imediato, fomos convidados para ir à Festa da Uva. O maior problema da turma era a falta de grana para passar uma semana no Rio. Surgiu então o vivo que ultimou: ou dinheiro ou não se fica aqui. Os coordenadores se viram forçados a financiar um empréstimo, pois, não podiam fretar um ônibus RIO/POA, para antes do dia 20. Para conseguir o dinheiro fomos ao Forte do Leme conversar com o Comandante Mauro. A coordenação do Projeto Rondon estava toda sediada em tal forte. Dizem que, ao cair o CATALINA CA-10 6521, o forte foi invadido por familiares da tripulação e de integrantes do Projeto Rondon, em busca de notícias. Um pasquim tinha noticiado que possivelmente alguns integrantes do Projeto Rondon estariam neste voo.

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CRONOLOGIA DA VIAGEM

Período: 12/Jan/1968 a 20/Fev/1968.
Local de destino: Missão Salesiana de Cará-Poço, à margem do rio Içana – Estado do Amazonas.
Ida: 12/Jan/1968 – Porto Alegre/RS ao Rio de Janeiro/RJ;
15/Jan/1968 – Rio de Janeiro/RJ a Brasília/DF;
15/Jan/1968 – Brasília/DF a Manaus/AM;
18/Jan/1968 – Manaus a Barcelos; Barcelos a Tapuruquara; Tapuruquara a Uaupés; Uaupés a Taracuá; Taracuá a Cará-Poço (Nossa Senhora da Conceição).
Volta: 10/Fev/1968 – Cará-Poço (Nossa Senhora da Conceição) a Uaupés;
12/Fev/1968 – Uaupés a Tapuruquara; Tapuruquara a Barcelos; Barcelos a Manaus.

VARN 14Imagem do nosso percurso Manaus/Içana em mapa da época

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NOTÍCIAS DA IMPRENSA

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Correio do Povo – 15 Jan. 1968

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Correio do Povo – 13 Mar. 1968

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