O Curso de Bombardeio para os Asp. Of. Av. da Turma de 1956, em Fortaleza, estava chegando ao fim e havia chegado a hora de classificar os formandos nas novas Unidades. A escolha foi feita pelo critério de antiguidade... Quando chegou a minha vez, ou iria para a Escola de Aeronáutica – no Campo dos Afonsos/GB – para ser Instrutor de Voo ou ia servir em Belém.

Escolhi Belém, onde estava baseado o 1°/2º GAv. que operava com CATALINA PBY-5A em Missões de Patrulha. Pouco depois, fiquei sabendo que os CATALINAS estavam sendo mais empregados nas Linhas do Correio Aéreo Nacional do que na Patrulha. Na Amazônia daquela época quase não havia campo de pouso e o CATALINA, como avião anfíbio, tinha papel relevante na integração daquela área territorial. Ele encurtava as enormes distâncias vazias e integrava a população ribeirinha às localidades com algum desenvolvimento na Região.

Quando cheguei à Base Aérea de Belém (BABE), no início de 1957, levei um choque! Ela estava parada no tempo... Suas instalações eram as mesmas que foram usadas pelos norte-americanos na II Guerra Mundial. Não havia nenhuma modificação para melhor... Os Oficiais solteiros ficavam alojados no prédio denominado T1 que era, ao mesmo tempo, refeitório, cassino, e alojamento. Tudo precário e desconfortável! Levei o choque porque estava vindo de Fortaleza, uma Base Aérea com instalações adequadas, sólidas e confortáveis. Aprendemos na vida militar que devemos nos adaptar ao meio em que vivemos... Foi o que fiz! 

BABE 1950

Vista aérea de Val de Cans em 1950 (o aeródromo, a Base Aérea, e o 1º/2º GAv.)

A BABE era comandada pelo Maj. Av. Francisco Antonio GALLO que gozava do conceito de ser viciado em jogo de pôquer. Na verdade ele passava todas as noites em claro na banca de pôquer; só ia dormir antes do nascer do sol e só comparecia ao expediente após as 12:00 hs. Aquilo não nos afetava porque estávamos engajados na vida do Esquadrão. 

Logo que chegamos recebemos funções secundárias no Esquadrão e fomos engajados na instrução teórica do CATALINA. Ao iniciarmos a instrução aérea, ela foi logo interrompida... As aeronaves estavam com a Inspeção IRAN vencida e precisavam realizar nova inspeção para retornarem ao voo e isso levava tempo. Ficaram apenas duas aeronaves em condição de voo para atender prioritariamente as linhas do CAN que era uma questão de sobrevivência...

Foi então que a Diretoria de Pessoal da Aeronáutica remanejou seis 2º Tenentes para as Bases Aéreas de Fortaleza, Natal e Recife. O 2º Ten. Av. Fontenelle e eu fomos voluntários para retornar à Fortaleza. Foi assim que passei apenas uma pequena temporada em Belém e não registrei, na época, nada que me deixasse saudade...

No segundo semestre de 1957, o Ministério da Aeronáutica decidiu investir em melhorias da BABE. O Cel. Av. Antonio Geraldo PEIXOTO, Oficial conceituado e de boa estirpe, foi designado seu Comandante e levou consigo vários Oficiais considerados brilhantes para mudar a ideia de que, na época, servir em Belém representava castigo para o militar ali destacado.

No pouco tempo em que servi, em Belém, constatei coisas bastante pitorescas...

Estranhei o fato de que, no Rancho dos Oficiais da BABE, o serviço era realizado por garçonetes e não por Taifeiros como de praxe na FAB. Fiquei sabendo que esse hábito era herança dos norte-americanos quando ocuparam a Base Aérea durante a II Guerra Mundial. Alguns anos mais tarde, esse serviço passou a ser realizado por Taifeiros.

Dentre as garçonetes, havia a LINDALVA – morena bonita – que chamava atenção dos Oficiais solteiros, tal era o seu charme. Ela, entretanto, não se envolvia com ninguém quando estava de serviço. Anos depois, um Tenente baixinho, que não servia em Belém e era do tipo “galã do asfalto”, se encantou por ela e a levou para sempre na sua garupa...

A comida do Rancho não era nenhuma maravilha, mas, era considerada uma das melhores da cidade. Naquela época, com exceção dos grandes centros urbanos, não havia costume de se fazer refeição fora de casa. Entretanto, era comum os Oficiais casados e seus familiares frequentarem o Rancho, principalmente, nos dias do cardápio com iguarias da terra (casquinho de caranguejo, casquinho de muçuã, pato no tucupi, filé de pirarara à delícia, caldeirada de tucunaré, etc.)

Quando chegamos transferidos, conhecemos o já lendário “BRUCUTU” – Raimundo Alves PEREIRA, funcionário civil originário do efetivo do QG da 1ª ZAé e integrado na recém-criada Comissão de Aeroportos da Região Amazônica (COMARA). Caboclo forte e do tipo valente, trabalhava na Seção de Linha D`Água dos CATALINAS, no 1°/2º GAV. Ele só tinha medo do peixinho CANDIRU... Sua presença e atuação na implantação do balizamento e na manutenção das hidro pistas da Amazônia era marcante e imprescindível na garantia da operacionalidade dos CATALINAS na Região.

Entre os Oficiais solteiros, haviam dois que se destacavam pela maneiras diferentes de ser: o primeiro era o “CORUJÃO” – alto, forte, nascido numa cidade de fronteira do Mato Grosso – tinha o hábito de só falar depois do meio-dia; antes disso, se comunicava por sinais... Faleceu, ainda como Tenente, num acidente aéreo em Araguari/MG. O outro era louro, galante, bom de papo, e isso fez com que granjeasse a preferência das moçoilas paraenses; os invejosos deram-lhe um apelido que colou entre a oficialidade “COCÔ DO CAVALO DO MOCINHO”; de certa feita, envolveu-se num problema de Justiça e chegou a ser condenado, embora fosse inocente: foi acusado por uma donzela de tê-la desonrado e levou algum tempo para provar que quando a conheceu sua honra já estava voando pelo espaço e, assim, foi absolvido; essa lição amarga, fez com passasse a levar uma vida mais discreta...

Naquela época, só havia a Estrada Beira Rio para se chegar ao Centro de Belém. Outros acessos à BABE só foram construídos posteriormente. A Estrada Belém/Brasília não existia. A Vila dos Oficiais, em Maracangalha, estava sendo construída e o prédio do Quartel General da 1ª Zona Aérea funcionava num prédio antigo da Praça da Republica.

Diversão era pouca e, sempre que queríamos mudar a rotina, a solução era ir à Praça da Republica onde, todas as noites, havia o “footing” em frente ao Grande Hotel, até às 21:00 hs, quando a “ONÇA ERA SOLTA” e todo mundo voltava para casa. Invariavelmente, sempre estavam lá três solteironas feiosas que, de braços dados, ficavam desfilando. Não sei quem foi, mas, botaram nelas o apelido de “A FOME, A PESTE e a GUERRA” como referência aos Cavaleiros do Apocalipse. Pura maldade com as donzelas!

Jonas Alves Correa

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Sobre o Autor: Jonas Alves Correa – Cel. Av. Ref. – Nascido a 21 de junho de 1933, em Cuiabá/MT. Formado Aspirante-a-Oficial Aviador, na Escola de Aeronáutica – Campo dos Afonsos – Rio/GB, em 20 de dezembro de 1955. Integrou o efetivo do 1º Esquadrão do 2º Grupo de Aviação (1º/2º GAV), em Belém/PA, de janeiro a março de 1957. Serviu na Base Aérea de Fortaleza/CE, foi Instrutor de aeronave B-26 Invader, no 5º Grupo de Aviação, em Natal/RN, e serviu nas Bases Aéreas de Campo Grande/MT e Brasília/DF, até ser requisitado, em 1966, para o Gabinete do Ministro da Aeronáutica onde permaneceu até 1977. Foi Comandante do 6º Esquadrão de Transporte Aéreo (6º ETA), em Brasília/DF, no período de 1977 a 1979. Passou para a Reserva da Aeronáutica em 1981.

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