As circunstâncias que culminaram com a parada dos motores do PA-10 6520, em voo de Belém/PA para Recife/PE, em fins de 1953, durante um deslocamento de cinco aeronaves do 1º/2º GAv para a Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro/GB, e algumas ilações sobre o açude não identificado onde amerissou, tornaram imprescindível a elaboração deste Artigo.

Isto porque estes esclarecimentos técnicos detalhados, calcados nos registros do Autor, somente foram produzidos, no mês de janeiro de 2013, pelos Catalineiros: Engenheiro Elétrico Antônio SIZO Filho (1S QAV Refm), Maj Dent Aer Refm Carlos KIZAN Dias (1S QAV até formar-se em Odontologia), Empresário Gilberto de Castro BITAR (1S QAV Refm), e Administrador de Empresas Pedro Eustáquio Frazão COLLARES (Cap QAV Refm).

Da mesma forma, as ilações registradas sobre o açude não identificado onde amerissou foram produzidas nesse mesmo mês.

No açude...

O retrospecto:

Por ordem do então Cmt. da 1ª Zona Aérea – Brig do Ar Ary de Albuquerque Lima, dada no início de 1953, o PA-10 6520 foi modificado para Transporte VIP – no Núcleo de Parque de Aeronáutica de Belém (NuPARAER/BE), a fim de atender aos deslocamentos aéreos do Comando e de outras autoridades. Nessa modificação, incorporou reformas internas, com colocação de assoalho e instalação de poltronas para maior conforto dos passageiros; realizou a troca do motor direito e a abertura de drenos no casco da aeronave.

Só que, na troca do motor direito, a válvula de corte do fluxo de combustível do tanque da asa direita para os motores, situada na parte externa da coluna da Torre do Mecânico de Voo, foi fechada para possibilitar a execução dos serviços e não mais aberta após a sua conclusão.

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Croquis do  sistema de combustível do PBY-5A

Podemos observar que a válvula de corte da direita (em preto) tem a "manopla", isto é, o punho de comando, com a seta voltada para dentro. Esta era a única apresentação que permitia colocá-la a 90°, na posição fechada. A própria válvula não permitia a rotação inversa, daí existirem as duas válvulas para as posições "esquerda” e “direita". E, porque tal configuração? Porque as válvulas, quando ambas na posição fechada, não permitiam que o Mecânico colocasse a carenagem da parte externa da Torre, a não ser que  tivessem sido montadas, por engano, em sentidos opostos, isto é, a da direita montada no lado esquerdo e vice-versa. Isto só seria possível quando da montagem do sistema – nunca nos serviços de manutenção – porque as conexões dos terminais das mangueiras tinham o mesmo número de fios de rosca e diâmetro. Observando o croqui, vemos que a seta da válvula de corte esquerda (em vermelho) está direcionada para a parte superior da Torre, única posição que permitia ser a carenagem do compartimento colocada e aparafusada sem esforço.

O procedimento normal para operação na decolagem (TO-1 PBY-5/5A) previa as seletoras de combustível na posição “ambos os tanques para ambos os motores”, o que permitia que cada tanque alimentasse ambos os motores ao mesmo tempo. Com a válvula de corte do fluxo de combustível do tanque da asa direita para os motores fechada, como foi o caso, a posição da seletora de combustível do tanque direito em “ambos os tanques para ambos os motores” era inócua, ou seja, seria consumido apenas o combustível do tanque esquerdo. Nos voos de experiência, realizados com o PA-10 6520, na fase de entrega da aeronave pelo NuPARAER/BE, de pequena duração e com pequeno consumo, nada foi notado. Entretanto, no deslocamento para Recife/PE, com um consumo bem maior e de somente um tanque, os motores pararam de funcionar quando o combustível desse tanque acabou.

Outra circunstância contributiva para a carga de adrenalina nessa aventura: em um ou mais drenos do PA-10 6520, não haviam sido recolocados os pertinentes plugs vedantes, o que resultou na entrada de água do açude no casco da aeronave amerissada.

Nas lavagens internas da aeronave, tais plugs eram retirados para drenar a água e a sujeira decorrente da limpeza. E, certamente, o PA-10 6520 passou pela Seção de Lavagem de Aeronaves do NuPARAER/BE, após os serviços de modificação ali realizados...

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Ilações sobre possibilidades para identificação do “Nosso” açude

Decolado de Belém/PA, em voo direto para Recife/PE, o PA-10 6520 havia voado cinco horas e dez minutos quando os motores começaram a ratear e pararam por completo. Pela navegação estimada, o rio Acaraú seria logo sobrevoado o que, realmente, ocorreu quando, atravessada uma camada de nuvens, os Pilotos puderam visualizar o terreno e identificá-lo. No voo planado foi mantida a reta no rumo que vinha sendo seguido. Como o Acaraú estava seco, impossibilitando uma amerissagem, foi procurado um local para o pouso. Então, foi vislumbrado um lampejo, como um reflexo de água, à direita da aeronave. Confirmado ser uma área com água, foi feita uma curva para a direita, a fim de colocar a aeronave num perfil de descida e aproximação para o local. Durante essa manobra, foi confirmado tratar-se de um açude, com uma pequena localidade próxima. Pelos dados da navegação estimada realizada e da comparação do terreno com o World Aeronáutico Chart (WAC) da área – existente na Pasta de Navegação – os Pilotos interpretaram estar se dirigindo para o açude Acaraú Mirim.

Barragem do Rio Acaraú Mirim – no Ceará

Coordenadas: 3°30'21"S 40°16'42"W

Cidades próximas: Barras e Tutóia – no Ceará, Teresina – no Piauí.

O Açude Acaraú Mirim é um açude brasileiro tipo barragem de terra homogênea, localizado no estado do Ceará. Sua construção foi concluída em 1907. Pertence à bacia hidrográfica do Vale do Acaraú, no município de Massapê, Ceará. Seu reservatório tem capacidade para armazenar 52 milhões de metros cúbicos de água.

Andre NettoEu, André Netto, fiz essa e outras fotos aéreas de Ipaguaçu, lugar pacato e hospitaleiro. Sendo esta foto de grande importância, pois, foi uma das várias barragens construídas pelo meu avô José André do Nascimento, por volta do ano de 1952, lugar onde morava e deu inicio a sua família. (direitos http://www.panoramio.com/)

Um dos integrantes da Equipe de Manutenção, a bordo do PA-10 6520, fez várias fotos do açude, após a decolagem e durante a subida sobre o mesmo. Uma delas (abaixo) retrata inúmeras semelhanças com a do André Netto, mostrada acima.

“Nosso” açude e a barragem à direita (foto após a decolagem)

Outro açude, também à direita do ponto estimado de localização do PA-10 6520, quando seus motores pararam, é o Açude Araras:

Coordenadas: 4°16'8"S 40°28'29"W

Cidades próximas: Hidrolândia e Tianguá – no Ceará, São João da Fronteira – no Piauí.

"A barragem Paulo Sarasate, do Açude Araras, está localizada no município de Varjota, estado do Ceará, a cerca de 250 km da cidade de Fortaleza. Barra o rio Acaraú, pertencente ao sistema do mesmo nome. A sua bacia hidrográfica cobre uma área de 3.520 km2. Tem como finalidades a perenização e o controle das cheias do rio Acaraú".

Os estudos de projeto tiveram início no ano de 1920 e, após uma série de paralisações, foram concluídos no ano de 1938. Posteriormente, foi projetada e construída pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas - DNOCS, com a consultoria da Cementation do Brasil S.A. - Engenharia Geral.

As obras civis foram iniciadas em 1951, como atividade de emergência e assistencial. No ano de 1953 começou-se a construção da barragem auxiliar e, em 1956, a construção da barragem principal, que foi concluída no ano de 1958.

Acude Araras 2011

Vista aérea do açude Araras (foto de 2011)

Vamos prosseguir nas pesquisas para elucidar qual foi o açude que acolheu o PA-10 6520, na sua amerissagem “silenciosa”, em 1953.

Entretanto, não só para os que participaram daquela emocionante aventura como também para todos os Catalineiros que continuaram a voar e a fazer voar essa magnífica “Garça”, seu nome está indelevelmente gravado como:

ABENÇOADO AÇUDE!

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PBY-5A 46582 USN – Ex-PA-10 e CA-10 FAB 6520

USN - Jacksonville/FLO - 2008

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Ary Barbosa – administrador do site