MAKTUB!

O “ASSIM ESTAVA ESCRITO” dos árabes!

Em 1951, estava indicado para os P-40, em Porto Alegre/RS, numa troca com o então Cap. Av. Delvaux que viria para o meu lugar nos P-47 do 2º Esquadrão do 1º Grupo de Caça de Santa Cruz/GB (2º/1º Gp. Av. Ca.). Naquela semana, um P-40 em voo de mergulho largou as asas, matando seu piloto Ten Av Argolo. Foi dada a ordem para suspender de voo os demais P-40 para inspeção geral das longarinas principais das asas. E, veredicto, todas estavam com fissuras, o que determinou a parada geral dos voos até que se fizessem os reforços necessários. Em consequência, passei a adido ao 2º/1º Gp. Av. Ca., com funções na Base Aérea de Santa Cruz (BASC), como Comandante da Esquadrilha de Adestramento. Nessa função, assinava as Cadernetas de Voo dos Oficiais da BASC e dos Esquadrões. Verifiquei que os mais voados tinham em suas horas de voo homologadas missões em PBY-5 e PBY-5A CATALINA. O 1º/2º GAV, localizado na Base Aérea de Belém (BABE), nos fins de ano, deslocava-se com seus CATALINA para a BASC, a fim de participar da Manobra do Centro de Tática Antissubmarino Aeronaval (CTASAN) da Marinha. Nesse ano, num dos aviões estava o então 1º Ten Av HERMANO da Silva – da Turma de Aspirantes de 1947. Perguntado sobre os voos no Esquadrão, informou que uma vez lá qualificado iniciava-se, imediatamente, a instrução de voo e táticas aeronavais. A manutenção dos P-47 entrou em crise, com faltas constantes de suprimentos e meus voos ficavam cada vez mais escassos. Para ser qualificado como Líder de Esquadrilha, pela minha antiguidade como 1º Ten. recém-promovido, levaria ainda mais um ano aproximadamente. Resolvi, então, solicitar transferência para o 1º/2º GAV em Belém. As Organizações Militares da Aeronáutica de Belém do Pará, na época, eram consideradas “colônia penal”: todos os “não muito bons” elementos da FAB eram para lá transferidos. Em 1951, o então Ministro Nero Moura resolveu modificar tal situação. Separou e espalhou pela FAB inteira esses “não muito bons” elementos, fez uma “limpa geral” nas Unidades de Belém, e classificou, no 1º/2º GAV, os 10 (dez) primeiros colocados da Turma de Aspirantes de 1951; continuando, designou para comandar o Núcleo de Parque de Aeronáutica de Belém, com “carta branca”, seu dileto S-2 do 1º Grupo de Caça da Itália, o então Maj Av Eng José Carlos de MIRANDA CORRÊA e, como “oriundi” da Caça, lá fui eu para o 1º/2º GAV.

– MAKTUB!

O destino quis e lá estava eu, em Belém, nos PBY-5/5A CATALINA, designados P-10 (hidroavião) e PA-10 (anfíbio). E, as maquinações do destino continuavam! Durante o tempo de Cadete de 2º e 3º Ano, na Escola de Aeronáutica – Campo dos Afonsos/GB, fiz amizade com um Aspirante da Escola Naval – Sergio Malcher, companheiro de festinhas do Clube Naval Piraquê, situado na orla da lagoa Rodrigo de Freitas. Conheci sua família e ficamos muito amigos. No 3º ano da Escola de Aeronáutica, em 1948, os “bichos” do Curso Prévio deveriam procurar, no alojamento do 3º ano, o veterano com o mesmo número de cama que o seu, para servi-lo. Assim, deparei-me com um “bicho” de Nome de Guerra “Malcher” se apresentando! – O que você é do Sergio, perguntei? – Irmão, respondeu-me! Lembrei-me, então, do garoto a quem nem dávamos bola nas visitas que fazia à casa do Sergio. Apadrinhei-o até que fui declarado Aspirante-a-Oficial Aviador.

– MAKTUB!

Em 1951, esse menino Carlos Alberto MALCHER era um dos 10 (dez) Aspirantes classificados no 1º/2º GAV. Chegou, em Belém noivo e, sem moradia disponível, teria de alojar-se provisoriamente no Hotel Cassino de Oficiais T-1 da BABE. Devido à antiga amizade, convidei-o a hospedar-se conosco, em nossa casa no T-6 (residência de Oficiais, na BABE, defronte ao T-1).

T 6 Casa

O T-6 – Casa 1, na BABE (década de cinquenta)

Sua esposa Lia, com dificuldades de concepção, já havia perdido duas gestações anteriores, mas, quis o destino que, em nosso “barraco” T-6, conseguisse enfim conceber e fixar a gestação. Devido às precárias condições de atendimento médico, disponíveis em Belém na época, sua família decidiu pelo seu deslocamento para o Rio de Janeiro/GB, a fim de poder dispor de maiores e melhores cuidados nos meses finais da gestação até o nascimento da criança. MALCHER ficou solteiro e procurou fazer todas as viagens que aparecessem para acumular diárias fora de serie que garantissem as despesas do parto. Nós jogávamos tênis e fazíamos dupla no campeonato das Forças Armadas da Guarnição de Belém. No dia do jogo de duplas contra o Exército – 30 de outubro de 1953 – estávamos escalados, mas, MALCHER decidiu fazer a “viagem da carne” a Marabá/PA naquele dia. No dia seguinte, após a decolagem de Marabá, ocorreu o acidente no qual faleceu!

– Acidente no pouso de emergência do PA-10 6500, decorrente de incêndio a bordo, por volta das 07:30P de 31/10/1953, no rio Tocantins, a oito quilômetros da cidade de Marabá/PA, durante missão do Correio da Rota Amazônica. Neste acidente, também faleceram: 2º Ten Av Manfredo SOTOMANO, 3S QAV Eduardo DUARTE, e 3S QAR DARCY Bastos.

Naquele mesmo dia nascia sua filha Teresa Cristina!

– MAKTUB!

Até os dias de hoje, a amizade de sua viúva Lia e de sua filha Teresa Cristina permanecem profundas e inabaláveis com minha mulher e comigo. Somos padrinhos de batizado e casamento de Teresa. Há pouco tempo, consegui convencê-las a retornar a Belém para reverem o “barraco” T-6 – Casa 1, lugar onde fomos tão felizes juntos, e para que revissem e visitassem o local onde uma linda criança foi gerada. Aguardamos uma próxima festividade dos integrantes da Associação Brasileira de Catalineiros – ABRA-CAT para programarmos o nosso comparecimento.

– وسوف تكون مكتوبة!

Ou seja, Estará escrito?

O DESTINO NOS GOVERNA A TODOS...

Siudomar Machado de Carvalho

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TenAvMalcher

2º Ten Av Carlos Alberto MALCHER

TenAvSiudomar

1º Ten Av SIUDOMAR Machado de Carvalho

Fotos tiradas durante o último voo que realizamos juntos, em Missão de Busca e Salvamento, com Resgate, próximo à localidade de Caracaraí, no então Território Federal de Roraima – hoje Estado da República Federativa do Brasil.

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Sobre o Autor: SIUDOMAR Machado de Carvalho – Cel Av Refm – Nascido na cidade do Rio de Janeiro/GB, em 18 de novembro de 1927. Formado Aspirante-a-Oficial Aviador, na Escola de Aeronáutica – Campo dos Afonsos – Rio de Janeiro/GB, em 22 de dezembro de 1948, inicialmente qualificou-se como Piloto de Caça, nos P-47 do 1º Gp. Av. Ca., na Base Aérea de Santa Cruz/Rio/GB. Serviu na Amazônia, como 1º Ten. Av., integrando o efetivo do 1º/2º Grupo de Aviação (Patrulha), em Belém/PA, de 1952 a 1955. Em 1956, no 2º Grupo de Transporte, especializou-se em Transporte Aéreo e Transporte de Tropas. Prosseguiu na carreira como Piloto de Patrulha, no 1º Grupo de Aviação Embarcada (1º GAe), na Base Aérea de Santa Cruz/Rio/GB, especializando-se em Táticas Antissubmarino, quando recebeu a “Navy Wing” da Aviação Naval Norte-americana. Foi Chefe de Operações (A-3) do Comando Aerotático Naval (CATNAV). Foi Instrutor de Tática Antissubmarino no CTASAN (Centro de Tática Antissubmarino Aeronaval). Comandou o 1º/7º GAv Patrulha, com aeronaves P-15 NETUNO, na Base Aérea de Salvador/BA. Bateu recorde de permanência no ar, em aeronaves P-15 NETUNO, voando 25h e 15 min. Foi Chefe de Operações do Comando Geral do Ar, de 1969 a 1973. Voou quadrimotores no quadro de pilotos do Comando de Transporte Aéreo (DC-6/C-118). Foi Chefe do Setor de Instrução da Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Voo (DEPV), quando então passou para a Reserva da Aeronáutica em 1974.

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