Na pequena cidade de Tefé, no interior do Amazonas, lá pelos idos dos anos 70, o ar úmido e mormacento não tirava o ânimo da ceia natalina, alegremente preparada pelos familiares e amigos do Sargento Cmt. do Destacamento de Aeronáutica local. O afã de ver que tudo estivesse pronto à hora marcada para o início da festa foi interrompido pela brusca chegada do Antonio Ribeiroacadêmico do Campus Avançado do Projeto Rondon naquela cidade, com um dramático pedido: – Sargento precisa chamar um avião agora! O doutor viajou e aquela índia que ele operou está com hemorragia. A enfermeira, a Irmã Adonai, disse que ela não sobrevive sem atendimento urgente.

– Mas, ninguém voa na Amazônia à noite! – replicou o militar.

– Então ela morre! – concluiu o rapaz.

– Não! Vamos tentar... Pelo menos tentar...

E saíram os dois, rumo à escuridão, percorrendo a pé os 6 km de lama que separavam o lugarejo das instalações do Destacamento. Pouco menos de uma hora depois e o rádio-operador ligava os transmissores e receptores de telegrafia, pondo-se a chamar, insistentemente, a Estação Rádio do Aeroporto de Manaus.

Após uns vinte minutos de tentativas, foi possível estabelecer o contato e o acionamento do SALVAERO foi imediato à primeira comunicação. O operador de sobreaviso do SAR pediu que se mantivesse escuta na frequência-rádio, enquanto providenciava os dados necessários para a análise da situação: consultou mapas e cartas, calculou distâncias, pesquisou a situação dos auxílios à navegação existentes, abastecimentos prováveis e condições meteorológicas. Contatou o médico de plantão do Esquadrão de Saúde da Base Aérea de Manaus e passou-lhe o quadro clínico da paciente.

Antes mesmo que recebesse o parecer do médico, ligou para o Oficial Chefe do SALVAERO e colocou-o a par da situação. Este, participando ainda das festas junto à sua família, saiu rapidamente em direção à Base Aérea, onde obteve o laudo médico: parecer favorável ao deslocamento da paciente para o hospital, em Manaus, para cirurgia imediata.

A tripulação do ALBATROZ SA-16, de sobreaviso, foi acionada e, enquanto se estudavam quais as possibilidades do voo ser realizado, naquelas circunstâncias, o Oficial Médico recebia novas informações procedentes de Tefé sobre o estado clínico da paciente. Reavaliou o quadro geral, agora junto a um cirurgião, concluindo que dificilmente seria possível transportar a paciente, devido à sua crítica situação, mas, que conseguir mantê-la viva, sem uma imediata intervenção cirúrgica, só com um milagre...

6529 SA16

Os pilotos do SA-16 informaram ao Chefe do SALVAERO ser impraticável realizar um voo noturno, com o pouco apoio à navegação existente naquela rota. Seria um alto risco para toda a tripulação.

Após analisar detalhadamente o problema e as opções para resolvê-lo, informaram a Tefé que a aeronave só poderia decolar por volta das 4 horas da madrugada para chegar ao destino após o nascer do sol. Levariam um médico a bordo, visando proceder a um atendimento de emergência ainda no pequeno hospital local.

Foi transmitida a mensagem: “Rádio - Tefé deverá fornecer boletins meteorológicos, a partir das 07:00Z (três horas da madrugada), e manter escuta permanente, até o pouso da aeronave SAR” Ao que prontamente respondeu o telegrafista: “Ciente! Tefé no ar para qualquer nova instrução e para mantê-lo informado sobre alterações do quadro clínico da paciente” Terminado o contato, o Sargento explicou a situação ao Rondonista:

– O avião não pode voar à noite. Decolará às 4 horas e pousará aqui logo após a alvorada. Até lá... É com DEUS!

– Vou à cidade, então, avisar à Irmã Adonai. O senhor vem?

– Não. Ficarei aqui, porque pode surgir alguma novidade e recebi ordens para manter a estação ligada.

– Certo! Então, vou indo... – e, dizendo isto, rumou para a escuridão e desapareceu.

No modesto hospital a Irmã-Enfermeira Adonai, diante da demora, não tendo muita opção, levou a índia para a sala de cirurgia mui espartana, abriu os pontos externos e procurou a origem da hemorragia; achou o vaso rompido e o pinçou, estancando precariamente a hemorragia. Aplicou-lhe soro fisiológico e ficou junto à paciente, conferindo constantemente as variações de seus sinais vitais: pressão, pulso e temperatura. E, pôs-se a rezar...

Logo que o acadêmico do Rondon chegou e lhe relatou as intenções do SALVAERO, ela suspirou e disse:

– Está nas mãos de DEUS, meu filho. O que se podia fazer foi feito. Agora é esperar...
E as horas passavam devagar na quietude amazonense. O carapanã, à noite, não se detém nem diante do tecido das roupas, impossibilitando que se fique parado, sem se estar debaixo de um mosquiteiro (tecido fino sobreposto à cama igual a uma barraca armada). O calor não cede com a madrugada e o silêncio só é quebrado pelos poucos animais, caçando na escuridão.

As quatro da matina, já de posse de dois boletins meteorológicos sobre as condições do tempo, em Tefé, os pilotos decolaram o SA-16, aproando-o para oeste. A bordo transportavam, além do Mecânico e do Radiotelegrafista da aeronave, dois Oficiais Médicos: um cirurgião e um anestesista. Com eles, ia também um Suboficial Enfermeiro. Levavam plasma sanguíneo e material necessário à realização de uma cirurgia.

Duas horas e meia de voo depois, ao raiar do sol, chamaram a Estação Rádio do Destacamento de Tefé para obter as informações de tráfego. Aproximação direta, pouso curto; taxiaram rapidamente, logo cortando os motores. Mesmo cansados pela tensão do voo naquelas condições, seguiram de imediato transportando o material médico pelos quilômetros do caminho que levava à cidade. No hospital, encontraram aflitos a Irmã-Enfermeira e o Rondonista.

– Graças a Deus vocês chegaram! – falou aliviada a freira.

– Vamos operá-la aqui mesmo, Irmã. Onde ela está? – perguntou um dos médicos.
– Na sala de cirurgia, logo ali. – e entrou com os médicos, explicando-lhes o que fizera para manter a paciente viva. Informou-lhes das variações dos sinais vitais e, imediatamente, colocou-se ombro a ombro com eles, auxiliando-os na delicada tarefa de salvar aquela vida.

Lá fora, Antonio – do Rondon – e os familiares da índia, aguardavam pelos resultados daquela Missão de Misericórdia. E após quase três horas os médicos saíram da sala:

– Está tudo bem, pessoal. A paciente está estável e ficará em observação – voltando-se para a freira – Irmã, se a senhora não tivesse pinçado aquele vaso que provocava a hemorragia, ela não teria resistido. Parabéns! A senhora a salvou...
Os médicos, então, informaram ao 
Comandante do SA-16:

– A prolongada permanência da pinça no local da lesão causou uma pequena inflamação e, por isso, um de nós permanecerá aqui, observando a evolução do quadro, até que retorne o médico da cidade. O restante da equipe está à sua disposição, Comandante.

Foram convidados a um lanche no Campus do Projeto Rondon e, depois, a um merecido repouso, mas, o piloto gentilmente declinou do convite:
– Obrigado, mas temos de voltar. Deixamos nossas famílias em meio à Ceia de Natal. Temos que retornar aos nossos “postos”, não é pessoal? Todos concordaram e foram logo tomando o rumo do Destacamento, cansados, muito cansados... Mas, felizes e realizados pelos resultados da missão.

Tinha sido uma longa noite e um longo dia. No voo de retorno, o torpor misturava-se com a satisfação da missão cumprida. O sol ia alto, as cristas das nuvens reluziam prata e ouro. No bojo daquela garça de metal, companheiros conscientes do presente que receberam naquele Natal – salvar uma vida – pensavam nas outras tantas Missões de Misericórdia que realizaram e que ainda realizariam, naquela bela, porém, difícil região, pelas asas da Força Aérea Brasileira.

ISTO É A FAB... ASSSIM FOMOS... SOMOS... E SEREMOS NÓS!
 

OBS: Artigo publicado no jornal “O Balão”, de 24/08/1992, à pág. 3, editado pelo CECOMSAER àquela época, com revisão autorizada pelo autor.

Newton Marcos Leone Porto

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Sobre o AutorNewton Marcos LEONE PORTO é professor do Curso de Ciências Aeronáuticas da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Formado Sargento Radiotelegrafista (QRT TE) da FAB, pela Escola de Especialistas da Aeronáutica, em julho de 1972, iniciou sua carreira servindo na Amazônia, onde participou da construção do aeródromo de Tefé. Passou para a Reserva da Aeronáutica, em 1997, como Suboficial. Graduado em Pedagogia pela Universidade Católica de Goiás, em 1987, e titulado Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás, em 2004. Publicou as obras “BUNEL – uma tragédia amazônica – Ed. UBE, 1982” e “História do Transporte Aéreo no Centro-Oeste Brasileiro – Ed. da UCG, 2005”.

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