Nas andanças pelo interior de Rondônia, pousávamos em muitos locais onde funcionavam garimpos de ouro, de pedras preciosas ou de cassiterita - o minério do estanho.

Este "causo" aconteceu, em setembro de 1967, numa localidade chamada Periquito, garimpo situado ao Sul de Porto Velho, à margem de um rio com aproximadamente dez metros de largura. Lá pousamos, com o PIPER AZTEC do 6º Batalhão de Engenharia de Construção (6º BEC), para aguardar e transportar, para Porto Velho, um engenheiro e um técnico que estavam na picada da estrada em construção nas proximidades do garimpo – a então BR 29 e hoje BR-364 (ligação de Cuiabá/MT para Porto Velho/RO).

Enquanto aguardávamos, fui observar os trabalhos que os homens ali desenvolviam. E, conversando com uns e outros, travei contato com um velho garimpeiro de origem espanhola. Ao indagar como chegara a um local tão distante dos grandes centros e inóspito como aquele me explicou que era foragido da Legião Estrangeira, por ter sido acusado de matar um coronel quando em disputa por uma mulher de bordel, na África. Sem testemunhas confiáveis para lhe dar um álibi, preferiu fugir a ser condenado ao mesmo destino.

Enquanto conversávamos, notei entre os equipamentos dos garimpeiros uma cabeça de escafandro dessas usadas por mergulhadores. Indagado sobre a necessidade daquela peça no trabalho deles explicou que era para mergulho nos rios garimpados, quando um homem descia até o leito do rio e retirava o cascalho para ser examinado pelos outros. Para isso, ele enchia um saco com o material recolhido e dava um puxão numa das cordas, controladas por outro garimpeiro na margem do rio, o que era o aviso para o saco ser içado.

Eles não usavam a roupa completa para mergulhadores profissionais (escafandro) por ser a mesma muito cara e pesada. Usavam somente a cobertura da cabeça que, n'água, era mais leve e não atrapalhava o trabalho de escavação no leito do rio e o enchimento do saco.

Cabeca escafandro

Cobertura da cabeça do escafandro

Notei, também, que na parte inferior da cabeça de escafandro havia muitos pequenos traços verticais, feitos na cor vermelha, uns próximos dos outros no sentido da circunferência. Não cheguei a perguntar o que aquilo significava... O espanhol disse haver garimpeiros que, na solidão do fundo do rio, recolhiam pedras de bom valor que não colocavam no saco. Essas pedras eram bem camufladas no calção e, depois, escondidas para prevenir o futuro... Pois, no garimpo “Todos observavam Todos!”.

E, quando um garimpeiro começava a falar em saudades da família, na decepção com o garimpo, na preocupação com a saúde, etc., etc., a vigilância sobre ele ficava mais severa. Era o sintoma da vontade de ir-se em boa hora... Atitude sempre muito suspeita devido ser o garimpeiro uma pessoa de índole ambiciosa e insensível. Quando começava com essa arenga, era sinal de que já tinha suas pedras escondidas. Se contasse a algum colega sobre a existência das pedras ou deixasse que descobrissem o seu esconderijo, do próximo mergulho não mais voltaria com vida!

O ar comprimido que o mantinha respirando no fundo, era-lhe cortado e somente quando não mais sentissem reação nas cordas de avisos ele seria puxado... Agora, já morto!

Aí era quando a cabeça de escafandro recebia mais um tracinho vermelho!

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OBS.:Da Coletânea “ANTES QUE A MEMÓRIA SE VÁ” de autoria do Cap. QAV Refm Pedro Eustáquio Frazão COLLARES.

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