Pedro Eustáquio Frazão COLLARES nasceu, em 20 de dezembro de 1936, em Manaus/AM. Ingressou na Aeronáutica, em março de 1958, na Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá/SP, formando-se 3º Sargento Mecânico de Voo (QAV), em dezembro de 1959. Iniciou e encerrou sua carreira militar, servindo na Amazônia, onde durante treze anos pertenceu ao efetivo do 1º/2º Grupo de Aviação (1º/2º GAv.), em Belém/PA.  Passou para a Reserva da Aeronáutica, em 1965, como 1S QAV sendo, posteriormente, promovido a Cap. QAV. Formado em Administração de Empresas, desempenhou atividades de consultoria empresarial em Belém/PA. Em 2013, com recursos próprios e tiragem da edição limitada, publicou sua obra “Antes que a memória se vá”, uma Coletânea (em prosa e verso) de estórias e “causos” em momentos marcantes da sua vida profissional como Catalineiro e de seus tipos inesquecíveis. Faleceu, em 16 de abril de 2015, na cidade de Belém/PA onde vivia.

Na Coletânea “Antes que a memória se vá”, assim recordou o seu ingresso na Força Aérea Brasileira:
“Corria o ano de 1954... A Escola Técnica de Manaus, onde eu fazia o Curso Ginasial Técnico, recebia a visita de um grupo de militares da Força Aérea Brasileira, pertencentes ao efetivo do recém-criado Destacamento de Base Aérea de Manaus.

O teatro da escola foi pequeno para conter todo o corpo discente, interessado em conhecer aqueles homens daquelas fardas diferentes, pois, na Manaus daquele tempo, só se conheciam as fardas do Exército e da Polícia Militar. Estes eram da aviação, coisa nova, palpitante e instigante para aqueles adolescentes separados dos grandes centros civilizados, nativos de um lugar que ocupa o centro de uma planície subdesenvolvida de 4 milhões de quilômetros quadrados no continente sul americano.

Cidade onde predominava o transporte fluvial para deslocamentos dentro do Estado. Para o Sul do País, os navios mercantes passavam quase trinta dias para chegar ao Rio de Janeiro.

O transporte aéreo já existia, com a Panair do Brasil e a Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, que utilizavam aviões de transporte aéreo militar transformados para passageiros que pagavam tarifas altas a que só pequena parcela da população tinha acesso.

Pelo avanço tecnológico e cultural que o avião significava, a juventude era atraída e estimulada a conhecer o seu cerne.

No prólogo, os aviadores falaram da missão da FAB na proteção aérea da região e trataram de dar a sua mensagem principal que era a exortação aos jovens estudantes para se habilitarem ao ingresso na Força Aérea.

A visita culminou com um convite para participarmos de um voo panorâmico, marcado para o dia seguinte e que constou até de um pouso n’água, feito a bordo de um poderoso CATALINA no leito do Rio Negro, em frente da cidade.

Dos militares que nos receberam, lembro apenas do comandante do Destacamento o Capitão Aviador Luiz Portilho Antony e do Sargento QAV Wander do Valle, ambos servindo no 1º/2º GAv. quando lá cheguei anos depois.

Como estudante de nível ginasial nessa época, eu procurava onde continuar a estudar mecânica. Era a minha vontade acalentada desde a infância, quando a curiosidade me levava a querer mexer em tudo de casa para “consertar”. Fechaduras de portas, ferro de engomar, máquina de moer carne, cano d’água, instalação elétrica, lamparinas a querosene, etc. Em tudo eu mexia! Em casa, ganhei até o apelido de Pedro Invenção, pelas coisas que eu estraguei, pelos choques elétricos que levei, e pelos curto-circuitos que provoquei.

Chegada a época do alistamento para o serviço militar, alguém me disse que o Exército tinha carros de combate de tecnologia recente (pós-guerra) e outros artefatos mecânicos para os quais haveria cursos. Isto me animou e fui para o EB como recruta conscrito.

A Unidade do EB, em Manaus, era um Batalhão de Infantaria – o 27º Batalhão de Caçadores- cujos artefatos bélicos eram: Fuzil HK, FO-Mosquetão, Metralhadora Madsen .30, Morteiro 81mm, revólver Colt .45, e um pequeno canhão antiaéreo pouco utilizado.

Os veículos do Batalhão eram hipo e motorizados. Os hipos eram os de tração animal e os motorizados eram de marcas de uso comum. Para mim, em matéria de mecânica, nada havia... Mas, não tinha jeito, eu já era um recruta em plena fase de treinamento de Soldado Infante.

Entrementes, sem eu esperar, fui inscrito num curso para Observador/Esclarecedor, juntamente com outros Soldados de mesmo nível escolar necessário ao entendimento do assunto do curso. Éramos dez alunos! Ao primeiro colocado seria dada a promoção a Cabo...

A função do Observador/Esclarecedor era exercida num Pelotão de Morteiros, como precursor que, à frente do grupo, munido de um Telêmetro, armado somente com um revólver .45, observa todos os detalhes do terreno inimigo, inclusive com as distâncias medidas pelo telêmetro, para relatar aos atiradores para o ajuste da pontaria para o ataque. Era uma tremenda “fria” essa função! Mas, fui o primeiro colocado e assim promovido e passei o resto do tempo de serviço ganhando melhor do que um Soldado. Fui até aconselhado a ficar mais tempo e tentar um curso para Sargento... Mas, a ideia da Mecânica era mais forte!

Certo dia, estava eu de serviço na Guarda do Quartel quando chegou um Sargento da Aeronáutica que ficaria recolhido ao Batalhão para não ser atingido pelos familiares de sua namorada que, por motivos óbvios, queriam trucidá-lo – para não dizer casá-lo...
Em conversas com esse Sargento – que tinha nome de italiano que eu não recordo – eu soube da Escola de Especialistas, dos cursos de Mecânica, e de outras oportunidades que a FAB oferecia. E, assim, tomei a decisão de inscrever-me para o concurso da EEAer. Era maio de 1956, no mês seguinte teria a baixa do Exército...

Começaria a organizar as matérias para o concurso: Português, Matemática, Física, com ênfase em eletricidade.

As provas eram em Belém. Fiz as provas no segundo semestre de 1956, na Base Aérea, e me mandaram esperar o resultado em Manaus.

Recebi o aviso de aprovado e o chamado para inspeção de saúde em Belém, após o que voltei a Manaus para esperar o resultado, que chegou um mês depois, informando que eu estava “incapaz” por noventa dias.

Voltei a Belém para inteirar-me da incapacidade a mim declarada e soube que eu tinha problemas com dentes primários ainda na arcada, obstruindo a eclosão dos definitivos.

Fiz o recomendado num dentista da cidade, voltei ao HOSPAER para novo exame, mas, o trâmite burocrático excedeu o prazo e eu perdi a matrícula na Escola e, ainda, o prazo para inscrição para o concurso seguinte – julho/57.

Só me foi possível nova inscrição para o concurso de outubro ou novembro de 1957.

Passei novamente e, sem problemas, pude ser matriculado em março de 1958 para formar-me em dezembro de 1959. Após tudo isso me tornei um Catalineiro!”

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