O Capitão MUNIZ era um Oficial Aviador da FAB, oriundo do Quadro de Sargentos Mecânicos de Avião (QAV), já reformado, mas, em plena atividade aérea civil. Por seus próprios méritos, no início da década de cinquenta, montou uma empresa – a SAVA - Serviços Aéreos do Vale Amazônico, e conseguiu concessões para o transporte de carga.

Inicialmente, o negócio foi bom e prosperou, levando à aquisição de mais aeronaves para a frota da Empresa. Mas depois, acossado pela concorrência e pelas dificuldades em uma gestão eficiente, advieram muitos problemas... Ele era um aviador experiente, mas, um administrador não tanto para gerir uma empresa aérea!

O gerenciamento do transporte aéreo brasileiro é reconhecido como uma atividade ingrata, pois, tem seu faturamento em moeda nacional e grande parte de sua despesa paga em dólar... Se a diferença cambial é um desafio até para administradores profissionais especializados, imagine para gestores de ocasião!

Assim, na década de sessenta, o MUNIZ amargava muitas dificuldades para fazer voar um Catalina com o qual “puxava” cassiterita dos garimpos de Rondônia.

PTBGA

Quando eu fui para Porto Velho/RO, trabalhar no avião do 5º Batalhão de Engenharia de Constrrução (5º BEC), encontrei-o reclamando de sabotagem em seu Catalina que apresentou as superfícies enteladas da asa rasgadas em grande extenção. Pediu-me para dar uma olhada no estado em que estava a aeronave. Inspecionei e constatei que as telas estavam realmente podres... A sua vida útil estava ultrapassada há muito tempo!

Como ele conhecia a solução, logo tomou providências para conseguir, no comércio local, um tecido conhecido por “brim”, já que o algodão mercerizado – o tecido padrão para o caso – ali não existia.

Concluído o serviço de entelamento, o avião voltou a voar na mesma atividade garimpeira, o que era uma temeridade, como diziam os pilotos de garimpo que faziam o mesmo serviço com aviões Cessna e outros do mesmo porte, bem menores e mais apropriados para as dimensões das pistas da área.

Pouco tempo depois, a nova “consulta” feita a mim pelo MUNIZ foi sobre “limalha”... Trouxe consigo um embrulho com boa quantidade de limalhas, retiradas do filtro de óleo lubrificante de um dos motores do seu Catalina.

O material era inconfundível, tratava-se de limalhas de prata (ag)! Ele quis saber o porquê da existência de prata naqueles motores...

Eu expliquei que a prata, por ser dúctil, servia como uma espécie de “almofada” no assentamento dos mancais da biela mestra do motor. E que, sem ela, haveria muita trepidação devido à folga deixada pela ausência da prata, podendo causar rachaduras no cárter. Portanto, aquele motor deveria ser substituído! Ele não acreditou na minha identificação da prata...

Aceitando sua incredulidade, sugeri que fosse até um daqueles artesãos bolivianos que faziam braceletes de prata, lá nas proximidades do mercado público da cidade, para testarem e identificarem o metal...

Ele, na esperança de que eu estivesse enganado, saiu mais do que depressa!

Lá pras tantas, chega de volta o MUNIZ, com sua cútis mais brilhante do que se estivesse envernizado... Ele era um negro genuíno! Negro total, sem misturas que o deixasse fubá ou amulatado...

Abre o embrulho e me diz: – “O boliviano disse que es plata de la buena!”. Estava convencido do estado precário do seu motor...

Mesmo premido pelas circunstâncias, ele não se deixava abater e continuava a “bolar” saídas para debelar as suas crises... Disse-me que tinha um motor, que fora trocado por ter atingido o limite de horas, e queria saber se poderia usar a biela mestra desse motor no que havia dado limalha.

Expliquei-lhe que a biela mestra tinha acopladas a si todas as bielas do motor, e, elas estavam montadas num conjunto único com os pistons que, por sua vez, estavam no interior dos cilindros – conjunto completo esse que formava a seção de potência do motor. Então, o que poderia fazer seria trocar a seção de potência completa, o que seria u'a mão de obra e tanta! Ele ficou de pensar...

No dia seguinte tive que viajar fazendo as missões do 5º BEC, o que me levou a ficar uma semana fora.

Quando voltei, a equipe do “Negão” (dois ex-Cabos da FAB e três civis) estava terminando o serviço... Eles tinham desmontado o motor no próprio berço, trocado a seção de potência, e estavam terminando a instalação da hélice. Tinham dúvidas sobre a situação do óleo lubrificante existente no tanque...

Eu lhes disse que havia a probabilidade do mesmo estar contaminado pela limalha, sendo aconselhável usar óleo novo... Eles não tinham nem óleo novo nem verba para a sua compra!

Em Porto Velho, tinha um estoque de óleo para uso das aeronaves da FAB. O guardião era um Cabo do Parque de Material Aeronáutico de Belém (PAMA-BE) que via, diariamente, tambores podres vazarem óleo e se perdendo derramado no solo...

O MUNIZ já havia pedido socorro a ele... Mas, sem autonomia para tal cessão, o CB pediu-me ajuda, que eu também não podia dar pela mesma razão. Mas, o MELCK assinou um vale e o óleo foi liberado para o “Negão”.

Na hora dos testes do motor no solo, ele me convidou a acompanhá-lo na cabine e me deixou fazer os testes para ver se havia trepidação... Incrível! O motor estava – como se dizia na manutenção de pista – “redondinho”...

Depois disso ele prosseguiu na sua batalha! Mas, no fim da minha estada em SBPV ele já havia mudado a sua base para Rio Branco/AC...

Uns dez anos depois, no escritório de uma transportadora holandesa que se associara a outra brasileira do Rio Grande do Sul – a TRANSPAMPA, onde eu estava, tratando de assuntos de logística da empresa em que então trabalhava, tive a grata surpresa de saber que o MUNIZ era um dos sócios dessa nova empresa. A entrada nesse grupo societário foi proporcionada pela sua propriedade da SAVA, que possibilitou o registro para operação no transporte aéreo de carga... A nova empresa parecia estar a todo vapor, faturando bem e com importantes clientes!

BoeingSAVA

E o MUNIZ, residindo em São Paulo/SP, muito bem, obrigado!

ISTO ACONTECEU NO ÚLTIMO TRIMESTRE DE 1967

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OBS.:Da Coletânea “ANTES QUE A MEMÓRIA SE VÁ” de autoria do Cap. QAV Refm Pedro Eustáquio Frazão COLLARES.

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