A Base Aérea de Manaus (BAMN) estava inaugurada com o mínimo necessário para o seu funcionamento, assim como a Unidade Aérea o 1º/9° Grupo de Aviação, estava começando a operar os Búfalos - novos aviões de transporte - que estavam chegando de sua fábrica no Canadá.

Os Comandantes estavam envidando todos os esforços para atender a demanda de materiais de construção, o que não era fácil de conseguir no mercado do ramo, em Manaus daquela época... Sem falar nas dificuldades com verbas curtas de que eles sempre reclamavam! Por isto, viviam a perscrutar onde pudesse existir materiais servíveis disponíveis de que a nossa obra necessitasse...

Assim, descobriram que havia na cidade de Amapá, ao norte de Macapá/AP, umas edificações deixadas pelos militares norte-americanos, ao fim da II Grande Guerra, que foram demolidas e das quais muitos materiais, de boa qualidade, foram postos à disposição da BAMN.

AmapaBaseAerea1944

Vista da Base Aérea de Amapá – 1944

E lá fomos nós, no Buffalo C-115 2361, se não me falha a lembrança... Os pilotos eram o Cel. Av. KASEMODEL e um Maj. Av., do qual não lembro o nome; o QRT VO era o CARNEIRO e eu o QAV.

A missão era transportar para Manaus uma quantidade de telhas de amianto – das grandes – que tomasse toda a carga útil do avião ou todo o seu espaço interno... Após o carregamento, o nosso acesso à cabine teve de ser feito pelas janelas de emergência do teto!

Todos a postos, partida nos motores, fomos para a decolagem e, na corrida na pista, sentimos uma momentânea trepidação, mas, a ascensão foi perfeita... Ora, um avião “zero-hora”, com duas turbinas GE possantes, parecia até que estava vazio! Só que, ao tentar buscar o rumo de Manaus, o avião só obedeceu ao último comando dos ailerons... Para nivelá-lo, após completar a curva, o comando não foi obedecido e ele continuou inclinado, com tendência a só voar em curva... E, assim ficamos, por quase uma hora, sobrevoando a pista e procurando um jeito de resolver o problema!

Com o aileron possivelmente travado, pensei na hipótese de um cabo de comando preso em alguma roldana quebrada... Fui rastejando, por sobre as telhas, removendo o forro da cabine de cargas e apalpando os cabos e roldanas que as minhas mãos alcançavam, até onde pude... Da seção central para as asas não dava para progredir por absoluta falta de espaço! Além do mais, a carga atingia altura tal que só restava um espaço de uns quarenta centímetros para eu me movimentar rastejando.

Ao voltar, com as mãos feridas, informei ao Cmte. que nada constatei até onde consegui ir... O CARNEIRO, muito cooperativo e num gesto de boa vontade, também deu um “mergulho” onde eu estivera e voltou sem nada ter observado.

Aí começamos a forçar o manche para colocar os ailerons na posição neutra, mas não o conseguimos! Eram umas cinco horas da tarde e estávamos naquela peleja já por, aproximadamente, quarenta minutos...

O Cel. Av. KASEMODEL, preocupado com a situação, resolveu que, se não saíssemos daquela condição em até mais quinze minutos, iria começar a procurar uma área de pântanos, que um mapa indicava a leste de Amapá, para pousarmos com chances de sobrevivência, pois, no solo duro a carga de telhas nos esmagaria na cabine... Foi preciso coração forte para vislumbrar uma aterragem semelhante!

O Major (2P), desde a decolagem de Manaus não passava bem! Naquele sufoco de “vê isso, vê aquilo - faz isso, faz aquilo”, ele entrou numa crise de náusea, ficou pálido e tonto, e teve que sair de sua cadeira... Como o espaço era exíguo, ele foi para a cadeira do Radiotelegrafista, onde ficou debruçado sobre a mesinha do manipulador. O RTVO veio para a cadeira do Mecânico de Voo (na posição entre os dois pilotos) e eu ocupei a cadeira da direita (posiçõa do 2P).

Com seis mãos fazendo força no manche, conseguimos fazer o avião dar uma nivelada! Mas, quando aliviamos a força no manche, ele retomou a atitude anterior...

Então combinamos de repetir aquele esforço e colocar a aeronave num ponto que ficasse no prolongamento da reta final... E, nessa condição, eu e o CARNEIRO seguraríamos o manche e o Coronel faria os procedimentos de pouso, ou seja, tiraria motor, baixaria o trem de pouso, os flaps, o Approach das hélices, e, então, levaria o avião até o solo... Assim combinado, assim feito, e, assim chegamos! Foi uma “chegada daquelas”... Mas com todos inteiros!

A bem da verdade, temos que admitir que o sucesso desse pouso repousou nas mãos do Cel. Av. KASEMODEL... Atencioso, ouvia tudo e a todos, aceitava sugestões e, quando necessário, polidamene as descartava. Além de ser um piloto bem voado e experiente em aviões cargueiros, como os C-82 e C-119 que a FAB empregava no 1º Grupo de Transporte de Tropa (1º GTT), sediado no Campo dos Afonsos/RJ. Foi a nossa salvação!

A turma em terra, no Destacamento da FAB de Amapá, que operava a Estação Rádio do SR-1, comandado pelo 1S QRT TE BARRETO que, muito expedito, logo providenciou tudo o que era necessário para o nosso pernoite, inclusive oferecendo um drinque para aliviar a tensão que nos envolvia...

A nosso pedido, comandou a peonada para descarregar o avião, pois, o mesmo iria passar por inspeção do Representante Técnico da De Havilland (fabricante do avião) – Mr. Nat Kuckson, que prestava assistência técnica aos Buffalo C-115.

Na minha inspeção de pós-voo, só pude verificar uma articulação, na ponta de um aileron, com defeito... Mas, olhando bem a pista, pudemos ver pequenas valetas feitas em sentido transversal ao eixo da pista, para escoar água das chuvas.

Talvez, a trepidação que sentimos na decolagem tenha sido causada pela passagem das rodas por essas valetas e transmitidas às pontas das asas, danificando a articulação do aileron... E, o nosso esforço para nivelar o avião talvez tenha complicado mais ainda a peça!

No dia seguinte, enquanto a equipe de Manaus voava para Amapá, nós éramos levados para Belém/PA, num avião do l°/2° Grupo de Aviação (1º/2º GAV.), para sermos submetidos a exames médicos no Hospital de Aeronáutica de Belém (HABE) e revalidar o Cartão de Saúde.

Foi uma experiência dolorosa e marcante, devido ao tempo que passamos impotentes, com a horrível expectativa de um pouso mal sucedido!

Com o funcionamento precário dos serviços no novel 1º/9º GAV, sem uma Seção de Estatística organizada, este voo foi registrado numa Caderneta de Voo que nunca recebi...

... MAS, ACONTECEU POR VOLTA DE AGOSTO DE 1969

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OBS.:Da Coletânea “ANTES QUE A MEMÓRIA SE VÁ” de autoria do Cap. QAV Refm Pedro Eustáquio Frazão COLLARES.

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