O Delegado era meu amigo...

Há cinquenta e seis anos atrás – mês de dezembro de 1960, estava em Vila de Rondônia/RO (atual Ji-Paraná, a segunda maior cidade do estado), na minha atividade de jornalista, tentando conseguir um transporte que me levasse até o Seringal Muqui, para entrevistar e fotografar os integrantes da Caravana Ford (*1) cujos veículos haviam atolado naquele trecho da BR-29, estrada ainda em construção.

Seringal Muqui

Os caminhões da Caravana (Foto Dez. 1960)

Saí do hotel onde me hospedara em busca de alguma viatura que pudesse alugar ou conseguir carona para chegar até o local onde a Caravana “empacara” e, coincidência ou não, dei de encontro com um amigo – o Delegado de Porto Velho, também em transito para o Seringal... Após cumprimentá-lo, manifestei a minha intenção e a dificuldade que enfrentava. Qual não foi a minha surpresa, quando me disse: – “Tourinho, por favor, não faça isso! Tenho aqui um telegrama do governador Paulo Leal (*2) determinando que você não tenha acesso e nem contato com a Caravana”. Mostrou-me o telegrama e acrescentou, em tom de considerada atenção: – “Volta para Porto Velho e dê por encerrada essa sua missão... E, olha, tenho ordem de prendê-lo se insistir na ida ao Muqui!”.

Vila de Rondônia

Imagem do “centro” de Vila de Rondônia em1960

Agradeci e me despedi, dizendo que não seria necessário prender-me... Caminhando de volta ao hotel fui conjecturando sobre o porquê do governador não querer o meu contato com Caravana. Arrumei as minhas coisas, fechei a conta do hotel, e me preparei para, agora, arranjar transporte não para o Muqui, mas, para Porto Velho. Na saída do hotel, eis que me deparo com outro amigo – o “Comandante MUNIZ”, proprietário e piloto de CATALINA, desbravador daquela região e de outros rincões alhures no transporte de todo o tipo de pessoas e de carga. No cumprimento alegre, perguntou: – “O que anda fazendo tão longe de casa?”. Contei-lhe da minha desdita e de ter que regressar para evitar a prisão pelo meu outro amigo – o delegado – ao que, de imediato e com o seu muito bom humor característico, disparou: – “Estou indo agora para Ariquemes... Vamos fugir juntos?”.

– “Topo! Estarei mais perto de Porto Velho e mais fácil de conseguir transporte...” respondi.

Vai daí, seguimos para o aeroporto e adentrei ao seu CATALINA, carregado com dez tambores de 200 litros de combustível, amarrados uns aos outros apenas com uma corda fina.

PP BTD 1

O PBY-5A CATALINA PP-BTD do Cmte MUNIZ (SAVA) adquirido em 1952
Não lembro se o que eu entrei era esse...

O Comandante MUNIZ não tinha nenhum tripulante nesse voo e fazia tudo sozinho... Fechar a porta do compartimento de carga, assumir a posição na cabine dos pilotos, dar partida nos motores, taxiar até a cabeceira da pista, acelerar os motores, decolar, recolher os trens de pouso, e sair voando e subindo... E, sem mostrar preocupação, entrar numa chuva pesada que parecia se concentrar exatamente no rumo que tomamos para Ariquemes. A “garça” não só balançava como parecia corcovear se divertindo em um balé na nuvem escura, enquanto o forte barulho de milhares de “pingaços” na sua fuselagem metálica colaborava como fundo musical para mais aquela aventura...

E eu preocupado, ou talvez com medo, de que aqueles tambores se desprendessem de suas finas amarras e quisessem participar daquele improvisado balé.

Não sei quanto tempo durou a minha apreensão, mas, em dado momento, eis que deixamos para trás a nuvem escura e vislumbramos o céu à frente, azul e sem nuvens, que me manteve tranquilo e jubiloso até a nossa chegada em Ariquemes...

O Delegado foi um amigo, mas, o outro amigo “Comandante MUNIZ” foi Meu Anjo da Guarda!

(*1) – CARAVANA FORD – São Paulo a Porto Velho de 28 de Outubro a 28 de Dezembro de 1960 – Texto publicado no jornal eletrônico Gente de Opinião em 11/08/2010

(*2) – Paulo Nunes Leal: nascido em Carangola/MG, em 01 de julho de 1916, foi Coronel do Exército, engenheiro militar, e político brasileiro. Nomeado governador do então Território Federal do Guaporé, no período de 13 de setembro de 1954 a 05 de abril de 1955, durante o governo do Presidente da República Café Filho. Nomeado pelo Presidente da República Juscelino Kubitschek, governou o Território Federal de Rondônia, no período de 06 de novembro de 1958 a 08 de setembro de 1961. Em 1960, organizou a Caravana Ford, abrindo a ligação rodoviária entre Porto Velho e São Paulo. Mais tarde foi também deputado federal por Rondônia, eleito pelo PTB. Ocupou a Secretaria Estadual de Transportes gaúcha no mandato do governador Euclides Triches (1971/1975) e elegeu-se mais uma vez para a Câmara, desta vez pela Arena do Rio Grande do Sul, em 1974. Escreveu o livro “O outro braço da cruz”, no qual relata que sugeriu a Juscelino Kubitschek, em 1960, a abrir uma rodovia entre Brasília e Rio Branco, lançando o projeto da BR-029, mais tarde BR-364. Faleceu em 2003.

Porto Velho/RO, 28 de outubro de 2016

Euro Tourinho

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