Como o próprio título indica, não se trata de uma biografia... Somente o relato de alguns episódios por mim vividos no convívio e sob as ordens do Tenente Brigadeiro do Ar João Camarão Telles Ribeiro, um gigante em ideias e ideais... Um brasileiro como poucos e único em suas estratégicas realizações e inabaláveis convicções que, nos anos cinquenta, sessenta, e setenta do século passado, não só emarcaram a história da Aeronáutica com suas conquistas de integração e desenvolvimento como elevou a educação no Brasil a um patamar inédito, com a revolução metodológica e curricular que promoveu no exercício do Comando da Escola Preparatória de Cadetes do Ar – EPCAR – em Barbacena/Minas Gerais.

Conheci Sua excelência – o então Brigadeiro do Ar Camarão – quando ele comandava a Escola Preparatória de Cadetes do Ar – EPCAR – lá pelos idos dos anos sessenta, em 1967 para ser mais preciso. E, acredito ter sido seu amigo a partir daí e até a sua morte em Campinas/São Paulo, já na Reserva como Tenente Brigadeiro.

Nossas histórias acabaram se cruzando por alguns acasos fortuitos do destino que começaram a se materializar, em março de 1964, quando me apresentei ao Coronel Aviador João Paulo Moreira Burnier e ao Tenente-Coronel Aviador Durval de Almeida Luz, Comandante e Subcomandante da resistência formada no Palácio Guanabara, sede do Governo do Estado da Guanabara (hoje Rio de Janeiro), para defender esse bastião contra qualquer eventual investida de partidários do então Presidente João Belchior Marques Goulart – “Jango” – que queríamos ver renunciado ou, no extremo, deposto, como acabou acontecendo...

Encerrado o movimento, com a deposição do Jango e com apenas um único tiro disparado de uma metralhadora INA, acionada pelo Coronel Montanha, no pé de um Sargento (depois desse tiro singular a metralhadora emperrou, como era de praxe!), na tomada do Forte Copacabana, fui para a Reserva Não Remunerada, como Oficial R-2 do Exército.

Três anos depois, recém-formado em Arquitetura e morando com meus pais na Rua Assis Brasil, em Copacabana, recebo uma convocação, portada por um Cabo da Aeronáutica, devidamente fardado e em viatura oficial, para acompanhá-lo até o prédio do Ministério da Aeronáutica, na Av. Churchill.

Mamãe, sem saber o que fazer e não prevendo coisa boa (já que vivíamos tempos de exceção) pôs-se a orar e a acender velas para todos os santos de plantão... Quase tocou fogo no apartamento, segundo relato posterior de papai!

Coloquei terno e gravata e lá fui eu, suando frio e sem atinar com o que poderia ter feito de errado...

Ao chegar à antessala do Gabinete, fui informado de que quem iria me receber era o Brigadeiro do Ar Burnier, Chefe do então temido CISA – Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, e, mais preocupado ainda fiquei!

Apresentei-me e ele me mandou sentar...

O diálogo que se seguiu foi surreal:

– Estou sabendo que o senhor se formou em Engenharia! Nunca esqueço um rosto nem um nome e você estava lá – no Palácio Guanabara – comigo, em 1964...

Respondi: – Sim Brigadeiro, eu estava lá e até hoje tenho a sua assinatura no meu lenço de pescoço (nossa identificação no movimento). Mas, ainda não sou Engenheiro; por enquanto, me formei em Arquitetura e estou fazendo a complementação em Engenharia Civil.

– Não interessa! Você já tem emprego?

– Ainda não, acabei de me formar...

– Quanto ganha um Arquiteto recém-formado?

– Uns trezentos mil cruzeiros novos...

– Arrume suas coisas! Amanhã vem um “Beech” (o famoso Mata-Sete) lhe buscar aqui no pátio do COMAR. Você vai para Barbacena ganhando um milhão, casa, comida e roupa lavada... Tem um Brigadeiro “maluco” (sic) lá que está inventando de construir uma escola ou coisa parecida!

Barbacena1Barbacena/MG

E lá fui eu me apresentar ao Comandante da EPCAR – Brigadeiro do Ar João Camarão Telles Ribeiro – que de “maluco” não tinha nada, mas de visionário e estratego tinha tudo... Fui recebido com um aperto de mão tipo “quebra-ossos” que retribuí na mesma moeda. Afinal, eu não era nenhum “fracote” e, hoje reconheço, era muito petulante! 

EPCAR

Outro acaso do destino: minha tia-madrinha Delma era casada (ainda é) com o então Capitão Intendente José Carlos Blaschek que estava servindo... Na EPCAR! Bem, aí eu já tinha casa, comida, roupa lavada... E família!

No mesmo dia da minha chegada, o Brigadeiro Camarão me convocou para uma reunião às onze da noite e, para meu espanto, fui instruído pelo Blaschek para ir me acostumando com isso, pois o “Chefe” só dormia umas três horas por noite...

E as guerras do “aperto de mão” continuaram sem que nenhum de nós dois cedesse ao outro!

Lá ficamos, discutindo até às duas da manhã sobre como fazer para que uma escola que acolhia quatrocentos alunos (Pré-Cadetes, no jargão local) passasse a comportar mil e duzentos, em um espaço de tempo de dois anos, pois, o plano era admitir quatrocentos por ano e trazer de volta para Barbacena o contingente do Terceiro Ano, que estava sendo realizado na Escola de Aeronáutica, no Campo dos Afonsos/Rio de Janeiro/GB.

Às sete da manhã em ponto, nesse mesmo dia e depois dessa primeira de muitas outras noites indormidas, apresentei um esboço de plano.

Sem dúvida, precisávamos prioritariamente de um pátio para a formatura de mil e duzentos “Pré-Cadetes”, mais Banda de Música, Pelotão da Guarda de Honra da Bandeira Nacional, Palanque, mastro da Bandeira, etc., e instalações de “rancho” capaz de alimentar a moçada com três refeições diárias, salas de aula, e alojamentos compatíveis... Quanto aos alojamentos, ousei dizer que, se não ficassem completamente prontos, sempre poderíamos acantonar alguns de forma precária... Por uns tempos!

Tomei a minha primeira bronca! Os objetivos do Brigadeiro Camarão eram muito mais ambiciosos... Eis a “pequena” lista do Chefe:

  • construção de um Pavilhão de Tecnologia – PAVITEC – com oficinas de datilografia (sim, ainda não haviam sido implementados e disseminados o computador e a digitalização), cerâmica, metalurgia, eletroeletrônica, e aerodinâmica, com uns 2.500m² de área;
  • ampliação da Cozinha, e construção de uma câmara frigorífica com capacidade para quarenta toneladas, pois, o “Chefe”, como medida de economia, queria ser capaz de comprar uma carreta completa de carne de cada vez e estocá-la;
  • ampliação do Pátio de Formaturas, com um muro de arrimo de seis metros de altura;
  • construção da Glossoteca (laboratório de idiomas) para ensinar Inglês e Francês pelo então novo e revolucionário método audiovisual;
  • construção de laboratórios de Física, Química, e Geociências. Aí, caí na besteira de perguntar o que era Geociências e fui convocado a estudar a matéria (em um livro, em Inglês, chamado Earth Sciences Curriculum Project) e tornar-me o implantador da disciplina na EPCAR e seu primeiro professor... eu, minha grande boca e enorme curiosidade!;
  • construção de mais treze salas de aulas;
  • construção de um alojamento para o Terceiro Ano (H-08);
  • construção de um Auditório- Cinema para 1.500 espectadores;
  • construção de um estande de tiro, de uma biblioteca, de um Estádio Olímpico, de uma sede para a Banda de Música (depois transformada em Banda Sinfônica, com a contratação do Maestro Marum Alexander... para desespero do Comandante da Banda, Sargento Cunha – hoje SO na Reserva);
  • construção de um Ginásio multifuncional, com uma piscina olímpica coberta;
  • construção de uma Lavanderia Industrial;
  • construção de uma Vila de casas para Oficiais, na Rua Sete de Setembro, e de uma Vila de casas para Graduados lá perto da Sericícola (Conjunto do Ministério da Agricultura onde se criavam “bichos-da-seda” e onde se produzia boa seda pura);
  • construção de um Reembolsável de Intendência (aproveitando o “pórtico do atleta” que lá existia) e de uma torrefação de café para comprarmos o café em grão... mais barato; e,
  • alguns outros penduricalhos, como o Portão das Armas, as guaritas, o muro periférico de quase três quilômetros de extensão, a demolição das casas desapropriadas na Rua Tomba Carro (entre as garagens e o H-8), etc...

Nessa altura, eu já estava completamente atordoado, pensando na enorme responsabilidade em cima dos ombros de um recém-formado e repensando aquela estória do apodo de “maluco”, cunhado pelo Brigadeiro Burnier!

Ah, sim! Estava esquecendo da Biblioteca e do “Bobário” (alusão jocosa à cadeia de lanchonetes Bob’s que reinava no Brasil antes do advento dos MacDonalds e do Burguers King da vida por aqui...), situado no térreo do prédio da biblioteca; era ali que os alunos iriam trocar seus “tickets”, fornecidos gratuitamente, pelo lanche da noite ou, se quisessem, poderiam comprar algum outro sanduiche, suco ou refrigerante extra.

Ainda, segundo a ótica desse pequeno (talvez não chegasse a 1,65m de altura), mas grande homem, a filosofia da EPCAR deveria ir além da sua vocação principal de formar futuros Oficiais da Aeronáutica. O foco ia além, muito além!

Era preciso formar, antes de tudo, o cidadão completo e dar a ele noções extracurriculares de ética, moral, democracia, e outros conhecimentos e habilidades que permitissem direcioná-lo para qualquer outra profissão prestante, diferente do Oficialato... Fosse ela qual fosse!

Mesmo porque a Academia da Força Aérea – AFA – iria demandar apenas uns cento e vinte a cento e cinquenta egressos da EPCAR para a carreira de Oficiais da Aeronáutica (ou das outras Forças Armadas) e os outros, em maior número, iriam tomar outros rumos e deveriam estar aptos para tanto com a qualidade necessária.

Espantosa e brilhante visão que provocou reações contrárias, ainda que veladas, do Alto Comando da Aeronáutica, sob o argumento de que seria um desvio dos objetivos da EPCAR que deveria ater-se, unicamente, a formar os jovens com foco na carreira de militar. Mas, apesar dessas críticas, o Brigadeiro Camarão foi em frente e elevou a EPCAR a um patamar ímpar como instituição de referência no ensino brasileiro... muito à frente das demais, tidas como de ensino tradicional de qualidade.

Para tentar padronizar as obras que não possibilitavam o aproveitamento de estruturas já existentes, modulamos as execuções em dois tipos de estruturas metálicas que comprávamos a metro de uma empresa paulista chamada ANDRATEL. Estruturas com 40m de vão – para o ginásio e o auditório-cinema – e estruturas com 12m de vão para a lavanderia, banda de música, etc. Os pedidos eram feitos na base de 240m de estruturas de 40m de vão e 100m de estruturas com 12m e, lá no terreno, nós íamos distribuindo os módulos à medida que recebidos.

ConstGinO ginásio em construção

GinásioO ginásio concluído

AuditórioO novo auditório 

Por incrível que pareça e à custa de jornadas de arrepiar (ou insanas, se preferirem...) e pouco sono, viabilizamos a coisa toda e mais alguns penduricalhos que iam aparecendo ao longo das execuções e dos projetos. Como, por exemplo, a Casa de Caldeiras alimentada a óleo BPF (*) – mais barato – para alimentar a cozinha, a lavanderia, e prover água quente para os banheiros ampliados do 1º e 2º Anos, já que o H-08 do Terceiro Ano era dotado de “boilers” próprios.

(*)Oóleo BPFé umóleocombustível derivado de petróleo, de baixo ponto de fluidez, também chamadoóleocombustível pesado ouóleocombustível residual; é a parte remanescente da destilação das frações do petróleo, designadas de modo geral como frações pesadas, obtidas em vários processos de refino.

Então, a EPCAR passou a abrigar um efetivo de mil e duzentos alunos, sendo quatrocentos e cinquenta só no 1º Ano, já projetando a possível evasão durante os três anos do curso.

AlojamentoUm dos novos alojamentos

Nessa altura do campeonato, o Brigadeiro já tinha me convencido não só a arranjar noiva como assumir outras funções na cidade. Fui “convidado” a entrar para o LIONS CLUB e para exercer o cargo de Secretário de Obras da Prefeitura local, na gestão do Prefeito Simão Tamm Bias Fortes que – outra pequena coincidência – tinha sido gerente da agência do Banco Mercantil de Minas Gerais, no Rio de Janeiro, onde a empresa de papai movimentava recursos substanciais. O “Chefe” estava empenhado em que eu, carioca empedernido, fixasse raízes em Barbacena e parasse de ir tão frequentemente ao “Rio Maravilha”...

E a “noiva”? Era a mais bela do “pedaço” e, formada em pedagogia, foi contratada pelo Brigadeiro para também ser professora de Geociências. O que levou a “fera” do pai dela – meu futuro sogro Fénelon – a também se habilitar para o cargo de professor da mesma matéria, só para nos vigiar... E, viramos a ”família geocientífica”! Mas, apesar dessas vicissitudes, nos casamos – para inveja dos “Pré-Cadetes” – e, modestamente, acho que dávamos conta das aulas com proficiência. Pelo menos, essa era a convicção do Geografo Aziz Ab’Saber – responsável pela implantação do Curso de Geociências na USP – o qual, diga-se de passagem, era baseado em nossas apostilas devidamente traduzidas do original em inglês (Earth Sciences Curriculum Project).

Como eram mil e duzentos jovens, na faixa de 14 a 19 anos, “lindos passarinhos, azuis como o manto de Nossa Senhora” (na verve da saudosa Izabelinha), todos fardados, aprumados, limpos, saudáveis e com a testosterona a mil, e, na cidade havia, no máximo, umas duzentas moçoilas namoráveis, o jeito era cansar a tropa... Assim, submetíamos esses “Pré-Cadetes” a oito horas de aulas diárias, cinco dias por semana, e mais quatro nos sábados.

PátioO Pátio de Formaturas ampliado

Depois dessa jornada exaustiva, ainda havia as atividades extracurriculares (aulas de teatro, musica, cinema, produção de TV, etc.) também ministradas por nós e pelo novo Maestro da Banda Sinfônica – Marum Salum Alexander. E mais, os “versa-carreis” – posições audiovisuais, individuais na Biblioteca – onde os alunos podiam repassar as aulas e tirar dúvidas (uma precursora da recuperação eletrônica atual).

VersaCarreis“Versa-carreis” individuais na Biblioteca

Casei com a Professora Miriam, no dia 14 de dezembro de 1968 – dia seguinte à edição do AI-5, e nenhum dos meus padrinhos pode comparecer, pois, eram todos Oficiais da EPCAR e estavam aquartelados, de prontidão... Inclusive o Brigadeiro Camarão, um desses padrinhos!

Em plenos anos setenta do século passado, o “Chefe” instituiu uma cadeira chamada “Introdução à Democracia”, com apostila elaborada pelo professor e Juiz de Direito da cidade – Dr. Marcos Sollero (até hoje ainda guardo em minha biblioteca um exemplar desse histórico livro)... Isso em plena vigência do AI-5!

Como se não bastasse, o Brigadeiro Camarão ainda me ”comissionou”, como professor de Geometria Descritiva. Menos mal que essa matéria, pelo menos, eu já dominava sem precisar estudar para dar aula. Mas, não pensem que esse acúmulo de funções significava aumento de salário... Continuava com o meu “milhão”, sem essa história de reajuste! E trabalhávamos com gosto e ímpeto invejáveis...

Nem todos... Reconheço! Mas, aqueles que iam ficando pelo caminho eram largados de mão... E, suas funções transferidas para nós que não dávamos o braço a torcer... Nosso lema era: “Se o Chefe aguenta, nós também aguentamos!”.

E, nessa toada alucinante, o Blaschek acabou sofrendo um infarto aos trinta e seis anos... Graças a Deus sobreviveu e sobrevive até hoje já nos seus oitenta e seis.

Feriados, para desespero dos professores, só os nacionais, e férias de, no máximo, trinta dias. E mesmo assim com “ofertas” de cursos de extensão que iam das matérias curriculares à filosofia pura e culminando com as nem sempre bem recebidas dinâmicas de grupo que, às vezes, acabavam em acaloradas discussões.

Ampliada a Escola, cada Turma saindo de lá afiada ou ia para a AFA, Escola Naval, ou AMAN, ou decidia prestar vestibular visando outras carreiras... E passava, sem cursinho nem nada, para as instituições mais concorridas como o IME, o ITA, a POLITÉCNICA, a UNICAMP, etc. Isso era extremamente gratificante: estávamos formando cidadãos de alto nível!

EPCAR Pós ObrasVista aérea da Escola já com as novas instalações

E tudo pela visão de um Brigadeiro do Ar que falava cinco idiomas e resolvia palavras cruzadas em grego... Herança trazida dos tempos de Observador Militar, na Grécia, durante a Segunda Guerra Mundial, de onde voltou casado com a Sra. Marie-Sophie Guyeu (filha de um diplomata francês lá também em missão).

Já então a EPCAR tinha se transformado em uma referência internacional no ensino médio, reconhecida pela Comissão para o Fomento do Ensino da ONU (acho que era esse o nome).

No rol dos “penduricalhos”, também construímos um banheiro dotado de água quente e um novo alojamento para os meninos órfãos de Campolide... E, essa estória merece ser contada!

Em um dia de inverno – e quem conhece Barbacena sabe que o inverno lá não é brincadeira – o Brigadeiro me convidou para irmos visitar um orfanato tocado por algumas freiras abnegadas, em Campolide. Lá chegando, vimos crianças de três a sete anos brincando em uma quadra cimentada. Alguns jogando uma animada pelada, outros, menores, correndo e pulando com a energia que só a infância tem, todos suando bastante. Em dado momento... um apito!

E as freiras empurrando os garotos para debaixo de duchas frias... era a hora do banho! Ao ver essa cena eu chorei e o Brigadeiro também se emocionou...

Resolvemos “desviar” alguns sacos de cimento, tijolos, chuveiros elétricos etc., etc., não só da EPCAR como também da minha Secretaria de Obras da Prefeitura. E, praticamente sem custo adicional (como fazíamos tudo por administração direta, nossos custos eram pelo menos 50% inferiores aos do mercado), construímos um novo dormitório e um banheiro com água quente para os meninos. Novamente nos emocionamos na inauguração da facilidade, vendo aquelas carinhas felizes que nada tinham além da comida, com um singelo banho quente e uma cama decente para o rigoroso inverno.

E eu jurei nunca mais ir a uma inauguração desse tipo! Fazer a coisa, tudo bem... mas, ir à inauguração, não! Pelo que constatei depois, acho que o Brigadeiro Camarão tomou a mesma decisão...

Bem, dentre os “penduricalhos”, também ampliamos a pista de pouso do aeródromo local (hoje Aeroporto de Barbacena) com alteração do seu eixo, o que provocou, durante certo período, a necessidade de um “pezinho” durante os pousos e decolagens para realinhar o avião no meio da pista. Era hilária essa “restrição” operacional... Única no mundo, ao que eu saiba!

AerBQ

Outra estória que merece ser contada: Em plena vigência do AI-5, alguns jovens de Barbacena, dentre eles o filho do renomado pintor Marcier, resolveram criar uma “célula guerrilheira” nos arrabaldes de Barbacena a que denominaram “República das Rosas”. Como a EPCAR era a única Organização Militar federal no “pedaço”, foi convocada para acabar com a “festa”! Nessa época, o Capitão de Infantaria do Exército Rui Garavelo Machado servia adido à EPCAR. E, como ele sabia que eu era 2º Tenente R2 de Infantaria, “convocou-me” para participar da missão. E lá fomos nós prender meia dúzia de jovens “gatos pingados” na tal “República das Rosas” e trazê-los devidamente escoltados para a EPCAR.

Lá chegando, o Cap. Ex. Machado perguntou ao Brigadeiro Camarão qual seria o destino dos “insurgentes”. Ao que o “Chefe” respondeu, para espanto de todos: – “Vamos contratá-los como funcionários da EPCAR e ensinar-lhes o respeito às instituições, à ética, moral, e o amor à Pátria.”

E assim foi feito... O líder deles, o tal filho do Marcier, tornou-se Monitor no Laboratório de Cerâmica do PAVITEC e os outros foram servir em diversas funções administrativas... Ao que saibamos, não mais houve insurgência político-ideológica em Barbacena. Esse era o Brigadeiro João Camarão Telles Ribeiro em estado puro!

Seis meses depois de casado a Miriam conversa comigo e pede o desquite! Sem entender nada, pergunto o porquê... E ela responde listando, uma a uma, as minhas catorze funções, na EPCAR, na Prefeitura, no LIONS, em outras comissões, e no Colégio Estadual.

Desolado e apreensivo com esse verdadeiro ultimato fui conversar com o “Chefe” que riu muito da situação... e me deu mais uma função: “Sponsor” de Classe-Lar (aqueles que conviveram por lá nesse período, sabem o que isso significa). Felizmente, a Miriam reconsiderou e continuei casado!

E mais, o “Chefe” resolveu inventar uma nova atividade para os fins de semana: a criação de uma “tropa” de Escoteiros-do-Ar para “aproveitar” as instalações da EPCAR nos fins de semana... com lanche gratuito e tudo o mais para a garotada. Foi uma loucura, mas deu certo! E era comparecimento em peso – em um fim de semana, o número chegou a cinco mil, contando os escoteiros e suas famílias – até por curiosidade, pelo lanche gratuito, e para aproveitar as facilidades instaladas na Escola (do cinema ao ginásio de esportes), tudo sob a supervisão de um corpo de voluntários (Oficiais, Professores e Alunos), já que, naquela época, a cidade de Barbacena não dispunha de muitos equipamentos públicos para lazer e prática de esportes.

Terminado o seu Comando, em julho de 1969, recebemos o novo Comandante – Brigadeiro do Ar Leonardo Teixeira Collares, a quem o Chefe da Intendência – Major Intendente Ivan Reis Guimarães (“Tamanduá”) apresentou as Contas da Unidade, o Chefe do Ensino Fundamental – Professor José Elpídio Allevato apresentou o relatório das atividades docentes e discentes, e eu relatei o estado-da-arte das obras de construção.

E o novo Comandante proferiu somente uma frase: – “Não assumo!”. E aí, tocou horror!

O Major Ivan se mandou para Brasília e, depois de muitas tratativas nervosas, envolvendo até a possibilidade de cadeia, de lá voltou com um cheque (isso mesmo: um cheque... naquela época era assim que se pagava!) de dois milhões e uns quebrados do dinheiro da época. Tirou uma fotocópia (ainda não havia Xerox), emoldurou e pendurou atrás de sua mesa, na Divisão de Intendência, com um largo sorriso no rosto... Fazia questão de mostrar o “troféu” todas as vezes que íamos à sala dele!

E o Brigadeiro Collares assumiu o Comando, não sem antes podar algumas obras como, por exemplo, o novo Hospital, optando por uma reforma no Posto Médico existente, para desespero do Major Médico Barros Lima que operava em uma sala com pó de cupim caindo do forro... Isso, eu resolvi na reforma, trocando o forro por outro de alumínio estanque!

Aqui um parêntese: A obra do Hospital (aquele que está lá até hoje) só foi executada, em 1973, já na gestão do Brigadeiro do Ar Osvaldo Terra de Faria, mediante a liberação da verba pelo Brigadeiro Intendente Josué Rubens Milhomens Costa – Chefe da SEFA – em um episódio engraçado. Como o orçamento estava completamente defasado e corroído pela inflação de mais de dois anos, o montante a ser liberado deveria ser três vezes maior que o inicialmente orçado. E o Brigadeiro Terra de Faria me passou o telefone para eu explicar isso ao Brigadeiro Milhomens. Em dez minutos de conversa repassei o telefone para o Comandante que ouviu, desligou e, pasmo, disse para mim: – “Engraçado, levei mais de um ano para conseguir a liberação de trezentos mil e agora só dez minutos para conseguir o triplo”... Coisas da inflação e do Milhomens que até hoje é meu amigo!

Tendo passado o Comando ao Brigadeiro Collares, o Brigadeiro Camarão foi para um breve ostracismo... Talvez por ter feito demais, fiado apenas na palavra dos Ministros, sem esperar as devidas formalizações. Com ele era assim: o Ministro dizia sim e, no dia seguinte, as obras começavam, sem mais delongas! Transferido, foi “pilotar” uma escrivaninha numa Subdiretoria qualquer, no Rio de Janeiro.

Nada que pudesse ofuscar o brilho da sua reputação como excelente Oficial que era! Seu único patrimônio, nessa época, era uns dezoito filhos e agregados, uma biblioteca de 20.000 volumes, cujas estantes desmontáveis ele usava para dividir espaços onde essa “tribo” dormia, e um automóvel “pé-de-boi”, um Gordini “depenado”, precursor dos atuais carros populares, só que pior, pois nem estofados eram os bancos (eles eram de tiras de lona trançadas).

E, no balanço da gestão do “Chefe”, no Comando da EPCAR, uma comprovação incontestável: as obras - todas executadas por administração direta – foram realizadas por uma fração dos preços de mercado; em uma época de incertezas e inseguranças, lá estava a EPCAR a promover os ideais democráticos, éticos e morais, e, sinalizando, com a excelência de seu currículo, como deveria e poderia ser o ensino pelo Brasil afora...

Promovido a Major Brigadeiro, o “Chefe” foi comandar o Primeiro Comando Aéreo Regional (COMAR I), em Belém/PA, em 1971, que naquela época tinha jurisdição sobre toda a Amazônia Legal Brasileira (ainda não tinha sido criado o COMAR VII, em Manaus), coisa de uns 5.400.000km² de área e 9.000km de fronteiras secas, com sete países lindeiros.

E, não deu outra! Novamente, o já Major Brigadeiro Camarão “convoca” uma equipe que ficou conhecida como “Os mineiros do Camarão”, para uma nova epopeia... E lá fomos nós! Eu, o mestre de obras Natale Crocce – filho do Prefeito de Barroso – e alguns professores da EPCAR encarregados de treinar professores locais para exercer suas funções na Escola Tenente Rêgo Barros, que o Brigadeiro Camarão criara, em 01 de setembro de 1941, quando ainda 1º Tenente do Corpo de Aviação do Exército, servindo no 7º Corpo de Base Aérea em Belém/PA.

A ideia era fazer lá o que tínhamos feito em Barbacena e mais...

Recebendo uma dotação consignada para lançar a licitação de um novo (é o atual) Aeroporto, em Santarém/PA, o “Chefe” resolveu fazer diferente... Resolveu aparelhar a COMARA, criar uma ponte rodoviária (com meia dúzia de carretas) São Paulo-Belém, colocar tudo sob nossa asa e fazer as obras... por administração direta!

Não sem antes ter criado certo (grande) mal estar com o então Administrador da COMARA – Coronel Engenheiro Otomar de Souza Pinto que, com razão, viu-se esvaziado em seu cronograma de obras já planejado. Por sorte, o Otomar era contemporâneo do Blaschek e muito amigo dele... Assim minha vida de “intruso” foi facilitada ou, pelo menos, tolerada!

Bem, a missão envolvia potencializar os recursos destinados a Santarém, arranjar umas “beiradas” aqui e ali e cumprir o seguinte programa:

  • construir a nova pista de Santarém, com um terminal de passageiros provisório;
  • construir mais oito ou nove campos (aeródromos) pioneiros pela Amazônia a fora, para receber os Bandeirantes que iriam substituir os Catalinas anfíbios;
  • criar um programa de capacitação de índios, tanto nos locais de origem dos mesmos como em Belém, construindo ali, nos terrenos da COMARA, o “Índio-Hotel” para receber esses nativos nos “estágios” de um mês, onde eles aprenderiam técnicas de agricultura e manejo de búfalos; e,
  • como não poderia deixar de ser, a “cereja do bolo”: reconstruir a Escola Tenente Rêgo Barros, com capacidade para mil e quinhentos alunos, em três turnos de quinhentos, com o mesmo sistema de apoio de ensino da EPCAR, inclusive laboratório de línguas (Glossoteca), ginásio, curso de Geociências, e tudo o mais.

E lá fomos nós planejar e realizar tudo isso... sempre para ontem!

O Coronel Intendente Tirso ficou encarregado da logística e da tal ponte rodoviária, para desespero dele. Como forma de abrandar o estresse ouvia música clássica baixinha... Só que era surdo de pedra!

Tínhamos que arranjar brita, cal, cimento, e uma Usina de Asfalto... tudo navegável, pois, teríamos que deslocar isso pelos rios de lá, já que não havia estradas disponíveis.

A primeira providência foi reativar a pedreira de Moura, pois, brita é coisa rara na Amazônia... Para isso, lá se foi o Tirso para São Paulo comprar uma nova britadeira, com seus “mastigadores”, e transportá-la pela nossa ponte rodoviária até Belém e de lá para Moura, subindo o Rio Amazonas até Manaus e o Negro até quase a confluência com o Rio Branco.

Pedreira MouraA pedreira de Moura/AM

BritadeiraBritadeira... A nossa era novinha!

A Usina de cal foi outra história... Aproveitando o conhecimento do filho do Prefeito de Barroso (cidade ao lado de Barbacena) – o mestre de obras Natale Crocce – sobre extração e queima de cal, fomos lá convidar o Genésio Graçano – esse era o nome dele – para passar umas semanas em Monte Alegre/PA e instalar uma caieira por lá. Embora estivesse recém-casado, topou a empreita e lá o deixamos com a promessa de buscá-lo em duas semanas... Esquecemos!

CaieiraUma caieira... A nossa era menor, mas, resolvia!

Três meses depois, precisando de cal, nos lembramos do Genésio... Mandamos buscá-lo e aplacamos sua fúria com tratamento VIP, em Belém, e passagem de avião comercial para ele voltar para casa.

Qual não foi a nossa surpresa quando, mais ou menos duas semanas depois, chega o Genésio de volta à Belém, dizendo que sua mulher já tinha arranjado outro e que ele queria voltar para tocar a caieira de Monte Alegre. Até hoje não sei se o “Chefe” realmente esqueceu o Genésio por lá ou fez de propósito, porque precisava dele...

Para a Usina de Asfalto usei o meu conhecimento como ex-secretário de Obras de Barbacena. Sabia que a Prefeitura tinha desativado a Usina de 20 t que eu tinha deixado por lá e sugeri que o Brigadeiro fizesse uma proposta de compra ao Prefeito. E assim conseguimos comprar a instalação por preço irrisório, e lá se foi o Tirso com a sua ponte rodoviária desmontá-la e transportá-la para Belém... Não pudemos aproveitar o C-130 que tinha sido emprestado para essa tarefa, pois a maior parte das peças não cabia no avião. Mas usamos as suas horas de voo para outros traslados...

Usina asfaltoUma usina de asfalto

Agora vinha a “relojoaria de precisão”! O plano era o seguinte:

– primeiro comprar um navio empurrador para levar chatas de setenta toneladas pelos rios afora. Isso foi feito e nos tornamos proprietários do COMARA I, belo empurrador/rebocador, comandado pelo oficial designado pelo Brigadeiro Camarão – o Tenente Especialista da Aeronáutica Rui que se tornou “voluntário” para comandar o barco, por livre e espontânea pressão...

– construídas as chatas, montada a Usina de Asfalto em uma delas, estávamos prontos para iniciar os trabalhos de asfaltamento das pistas pioneiras que já tinham sido rasgadas e empiçarradas nos rincões da Amazônia.

Aí surgiu o problema: subimos até Moura, carregamos brita e, na descida do Rio Negro, fomos abordados e presos pela gloriosa Marinha do Brasil, sob o argumento que “se eles não podiam voar (e, naquela época, a Marinha ainda não podia ter asas), nós não podíamos navegar”...

Mandada a mensagem para o “Chefe”, lá vem o Major Brigadeiro Camarão – Comandante do COMAR I, pilotando sozinho um “Beech Mata-Sete”, “descascar” o Capitão-de-Mar-e-Guerra que havia ordenado o arresto! A partir desse episódio voltamos a navegar!

A rotina era: carregar brita em Moura, descer o Rio Negro, embarcar cimento (comprado na Venezuela) em Manaus, seguir para Monte Alegre, pelo Amazonas, até mais ou menos defronte a Santarém, e carregar a cal. Seguir para Belém, atrelar a Usina de Asfalto e a carga de betume, arranjar areia por ali ou no destino, e sair em campo para realizar...

E assim, pelo preço de um Santarém, fizemos oito campos pioneiros e, ainda por cima, conseguimos asfaltar uns três, se não me engano.

Nesses campos pioneiros, inclusive em Santarém onde abrimos e asfaltamos a nova pista, o padrão era um só: módulos de estrutura metálica com doze metros de vão para os Terminais de Passageiros provisórios, dotados de uma sala de embarque, uma cantina, dois sanitários, e um balcão de atendimento e despacho. Módulos com quarenta metros de vão para os hangares. Tudo comprado em São Paulo da ANDRATEL... Lembram-se dela?

Aproveitamos o embalo e ampliamos/reconstruímos a Escola Tenente Rêgo Barros, baseada nessas mesmas estruturas metálicas que comprávamos a metro: Estruturas com vãos de doze metros para as salas de aula, laboratórios, glossoteca e cantina, e estrutura com quarenta metros de vão para o ginásio coberto. E, nas horas vagas, alguns professores da EPCAR, eu inclusive, dávamos seminários de capacitação para os professores locais.

Um detalhe: como essa Escola tinha por foco matricular os filhos da população ribeirinha, mais carentes da região e adultos ainda pouco letrados no turno da noite, o Brigadeiro Camarão instituiu o que chamou de “Classe de Artes Láricas”. Com a seguinte explicação: como a maioria dos alunos vinham dessa camada paupérrima da população local, a maioria não fazia ideia do que seria uma casa moderna. Muitos não sabiam sequer o que era um vaso sanitário! Assim, montamos um espaço de demonstração que nada mais era do que uma casa equipada com sala com sofás, mesa de jantar, ventilador e televisão; banheiro com lavatório, chuveiro elétrico, vaso sanitário, papeleira para papel higiênico; cozinha com pia, fogão a gás, filtro de água, torneiras com água corrente, liquidificador, batedeira, máquina de lavar roupa, etc... etc. Tudo montado para ensinar-lhes noções básicas de higiene e o manuseio dos equipamentos modernos da época...

E tinham à disposição aulas áudio visuais de inglês e Francês, laboratórios de Química, Física e Geociências, além de todas as atividades extracurriculares como as oferecidas na EPCAR.

Passamos um grande sufoco com essa obra... Quando numa “visita” da Inspetoria da Aeronáutica o Oficial mais antigo questionou o Brigadeiro Camarão sobre como ele havia realizado aquela obra que não estava no Programa do Ministério e muito menos tinha verba alocada.

Ao que o “Chefe” respondeu que tinha construído com as sobras das outras obras autorizadas... No que o Inspetor rebateu: – “Mas, quando sobra numerário o saldo não tem que ser recolhido para ser redistribuído?”

E nós atrás do Brigadeiro antevendo nuvens negras no horizonte!

A resposta do “Chefe” foi antológica: “Ô Hoffman (se não me engano esse era o nome do Oficial da Inspetoria), não sobrou dinheiro... Sobrou cimento, areia, telhas, tijolos etc... E se eu mandasse isso para Brasília iria emporcalhar todo o seu gabinete!”.

Ficou por isso mesmo e, ao que sei, a Rêgo Barros voltou a ser e continua sendo uma referência no ensino fundamental em Belém.

Um capítulo dos índios também merece ser inserido nesta pequena estória!

Lá na aldeia da tribo dos Tiriós, situada no norte do Pará, a seis quilômetros da fronteira com o Suriname, na beirada do rio Parú D’oeste, dois Frades alemães – Frei Angélico e Frei Protásio, se debatiam com a debandada desses índios brasileiros que eram constantemente atacados e tinham suas mulheres raptadas por uma tribo guerreira do Suriname... não havia mais “curumins” na aldeia e o futuro previsível apontava para a extinção da tribo brasileira.

O Brigadeiro Camarão, diante da situação, teve outra de suas ideias não convencionais!

Devíamos construir uma grande “oca”, em terrenos da COMARA, em Belém, para onde iriam os índios receber treinamento no manejo de búfalos e em agricultura moderna.

E assim foi feito. Construímos o “Índio-Hotel”, sobre palafitas, que está lá até hoje... abandonado, mas, em pé!

De lá, os índios eram levados para diversas aulas sobre como melhorar a produtividade de sua agricultura de subsistência, como manejar um rebanho de búfalos, como tirar leite das búfalas, fabricar queijo, tratá-las etc... etc. Cada curso desses tinha a duração de um mês inteiro.

Devolvidos à tribo recebiam de presente umas cabeças de gado bubalino e, sob a supervisão do Frei Angélico e do Frei Protásio, a comunidade começou a prosperar e não mais ser predada pela outra tribo guerreira do Suriname... Agora, vendo o progresso dos Tiriós, eles vinham aderir à nossa tribo.

A História correu o Brasil e o então Ministro da Aeronáutica – não lembro o nome dele – resolveu visitar Tiriós.

Feita a programação da visita que incluía o hasteamento da bandeira e o canto do hino nacional pelos indígenas, o Brigadeiro Camarão achou adequado que a “indiada” estivesse vestida e não nua como era natural ali.

A Intendência tratou de providenciar ternos brancos de sarja para os índios e saia e blusa vermelhas, de algodão, para as índias...

No dia da visita, lá fomos nós para Tiriós e nos deparamos com a seguinte cena: Os índios ou estavam de paletó ou de calça... mas, não com os dois ao mesmo tempo... e, as índias, igualmente, ou estavam de blusa ou de saia! Ainda bem que a comitiva levou tudo na esportiva e assim, com “meia roupa” os Tiriós cantaram de forma impecável o Hino Nacional e hastearam a nossa (deles) Bandeira.

Faz tempo que não vou a Tiriós, mas fiquei sabendo que Frei Angélico morreu e não sei do Frei Protásio...

Mas o apoio aos índios ia mais além... Em diversas localidades como, por exemplo, em São Gabriel da Cachoeira/AM, instalamos oficinas profissionalizantes administradas pela Missão Religiosa Salesiana, para a população local, majoritariamente de índios.

Para meu desencanto, na última vez em que estive em São Gabriel da Cachoeira, em fins do século passado, essas oficinas tinham virado sucata e, por incrível que pareça, alguns equipamentos do Destacamento da COMARA de lá ainda eram os mesmos que compramos nos anos setenta do século vinte.

Menos mal que o Hotel de Transito ainda funcionava!

Dessa jornada amazônica do Major Brigadeiro Camarão três episódios viraram folclore:

O primeiro protagonizado por uma jiboia de uns dois metros que criávamos no jardim interno da residência do Comando...

Certa feita, o Consul e a Consulesa da França foram visitar o Brigadeiro e sua esposa – Sra. Marie-Sophie que, como eu já citei, era filha de um diplomata francês. Os dois casais estavam conversando animadamente em dois sofás, “vis-à-vis”, separados por uma mesa baixa de centro, no living da casa que dava para a varanda onde nós, a “baixa canalha”, jantávamos.

Não é que a danada da jiboia desce do seu galho seco no jardim e vai aparecer entre as pernas dos cônsules?

Um grito, e a Consulesa levanta a saia até o pescoço e sai disparada escada acima em direção à parte íntima da casa!

Enquanto nós reconduzíamos a fujona para o canto dela entreouvimos a Sra. Marie-Sophie dizer: – “João, você não acha que isso não deve acontecer na casa do Comandante do COMAR?”

Prendemos o riso e saímos de fininho carregando a cobra...

O segundo foi ele voltar de uma incursão em uma tribo trazendo dois novos agregados: uma indiazinha órfã e um indiozinho com paralisia infantil e meio cego, sob o pretexto que, se deixados na tribo iriam morrer abandonados pelos outros índios... mais dois para a nossa “tribo” que já contava com uns dezoito membros, entre permanentes e temporários (eu era temporário)!

E o terceiro foi num voo noturno, de Bandeirante, de Tiriós para Belém, em que eu e o Brigadeiro estávamos na cabine e o Major Boanerges descansando. Era imperativo que eu chegasse a Belém, pois devia pegar um Transbrasil para Belo Horizonte, onde deveria pousar as seis da manhã e de lá seguir no meu carro para dar aula na EPCAR às nove (mais uma noite indormida, com certeza!).

O tempo estava terrível e nós driblando os CBs, ora subindo para um nível mais alto, ora contornando o “caroço”... Mas tudo debaixo de uma pauleira que desconectava o piloto automático. Estávamos voando na “munheca”! E eu tentando manter o avião estável...

Nesse momento o Camarão vira-se para mim e diz: – “Tarcizio, chega a ser imoral!”

Sem entender patavina e lutando para pilotar o “bicho”, perguntei: – “O que é imoral, Chefe?”

Resposta: – “Nós fazemos o que queremos, na hora em que queremos, nos divertimos e, no fim do mês, ainda ganhamos salário!”

Eis, novamente o então Major Brigadeiro do Ar João Camarão Telles Ribeiro em estado puro!

Depois da Amazônia, o Chefe foi promovido a Tenente Brigadeiro e terminou seu tempo na Ativa como Comandante do COMGEP. Nesse período, nossos únicos contatos foram sociais, nas visitas que eu fazia ao Rio de Janeiro.

Fui à solenidade de sua passagem para a Reserva e uma frase de seu discurso de despedida ficou gravada em minha mente: “Sinto-me como um marinheiro atirado borda fora em meio ao percurso.”

E de lá seguimos para sua casa na Ilha do Governador com ânimo fúnebre.

Não demorou muito para que o sobrinho dele, Dr. Rogério Cerqueira Leite, da UNICAMP, criasse através do braço empresarial da Universidade, a CODETEC, uma Comissão para estudar “Fontes Alternativas de Energia no Brasil”. Era o embrião e o prenúncio do Proálcool...

E o Brigadeiro Camarão foi convidado para assumir a presidência dessa Comissão. E lá fomos nós de novo: Blaschek: – como Diretor Financeiro, eu – como Diretor Técnico, um Coronel da Reserva do Exército – cujo nome esqueci – como Diretor Administrativo.

E, fomos estudar o problema!

Ao fim e ao cabo, resolvemos sair pelo Brasil afora para visitar os Institutos que estavam pesquisando o tema: CETEC, CIENTEC, CTA, INPA, etc. E, também o interior do Maranhão, Belém, e Manaus para verificarmos os potenciais do babaçu e de outras palmeiras e a fitomassa aérea daquelas regiões.

Coloquei o meu avião à disposição da Comissão mediante apenas o pagamento do combustível, pois nós mesmos iríamos pilotá-lo...

Saímos do Rio de Janeiro em três: Eu e o Camarão como pilotos e um Major Intendente da ativa, devidamente fardado, como ecônomo da tropa. Porque o Brigadeiro não era muito afeito em lidar com dinheiro!

Depois de uma escala em Belo Horizonte e outra em Brasília, resolvemos pernoitar em Porto Nacional, pois, estávamos voando visual e o tempo estava terrível. Lá, numa barraca de feira o Brigadeiro ficou com dó de um papagaio manco, com a perna quebrada provavelmente pela armadilha que o pegou, e comprou o bichinho...

Dalí seguimos para Bacabal para visitar uma planta para processar coco de babaçu. Ficamos impressionados com o tamanho da silagem e, mais ainda, ao sabermos que a coleta para encher aquele silo... era manual! Não podia dar certo, como não deu mesmo...

Mas o Camarão aproveitou e comprou um desses chapéus de couro de vaqueiro nordestino!

Seguimos por aí afora e fomos parar em Manaus, três dias depois, onde o Brigadeiro resolveu comprar umas seis mudas de guaraná, com mais ou menos 1,50m de altura cada uma, para plantá-las em Campinas...

Na saída de Manaus, com nosso avião baixinho de frente para o terminal já com o motor acionado e aguardando autorização para o táxi, Camarão no comando e eu de copiloto, eis que para na nossa frente uma tripulação da VARIG, toda uniformizada, aponta para nós e começa a conversar... Nessa altura, o Brigadeiro com chapéu de cangaceiro, papagaio manco no ombro, um Major fardado no banco de trás, e um docel de mudas de guaraná por todo o canto, pergunta: – “Tarcizio, você fez o cheque pré-voo?” Respondi que sim. E ele falou: – “Engraçado, parece que essa tripulação da VARIG está achando que tem algo errado conosco!”

Ao que respondi, rindo: – “Não, Chefe, está tudo certo exceto o chapéu, o papagaio e as árvores”... e caímos na risada!

De volta ao Rio de Janeiro, concluímos o trabalho, entregamos o relatório final e cada um foi para o seu canto...

Depois disso só vim a ter notícias do Tenente Brigadeiro do Ar João Camarão Telles Ribeiro quando de sua morte, picado por um enxame de abelhas em seu sítio de Campinas. Único bem que amealhou em toda a vida e assim mesmo comprado com a herança recebida pela sua esposa Marie-Sophie, por ocasião da morte de seus pais lá na França.

Viveu, com intensidade e dinamismo, para a FAB e para o Brasil; gerenciou e bem aplicou enormes somas de dinheiro e ainda maiores responsabilidades, empregando-as todas de forma objetiva, racional, e criativa em benefício da Nação. Gastava todo o seu soldo na manutenção da sua “tribo” e de agregados... Aliás, o patrimônio do “Chefe” eram uns dezoito filhos e agregados, uma biblioteca de 20.000 volumes cujas estantes desmontáveis ele usava para dividir espaços onde essa “tribo” dormia, e um automóvel “pé-de-boi” (um Gordini “depenado”), precursor dos atuais carros populares, só que pior, pois, nem estofados eram os bancos (eles eram de tiras de lona trançadas)... E, morreu pobre!

Foi um enorme privilégio ter convivido com esse notável grande homem que tanto realizou pelo Brasil!

São Paulo, 20 de janeiro de 2017

            Tarcizio Roberto Barbosa

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SOBRE O AUTOR: Tarcizio Roberto Barbosa – Nascido, em 24 de dezembro de 1941, no Rio de Janeiro/GB. Cursou a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena/MG, de 1957 a 1959. Formado em Arquitetura e Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, aposentado, vive em São Paulo/SP.

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