Nesta oportunidade, quero dar o meu testemunho, recordando alguns fatos, referentes a uma pessoa trabalhadora e dedicada à Força Aérea Brasileira, durante os momentos em tive a oportunidade de conviver profissionalmente com ele.

Trata-se do Ten.-Brig.-do Ar João CAMARÃO Telles Ribeiro...

Algumas coisas, eu participei ou presenciei e outras foram contadas por colegas.

O Brig. CAMARÃO (assim o conheci), realmente era uma pessoa espetacular, rígida no exercício de suas atividades, honesta, culta, e trabalhadora.

Quando cheguei, como Aspirante, em Belém, no início de 1973, era do efetivo do Serviço Regional de Proteção ao Voo de Belém (SRPV/BE), mas, tirávamos o serviço de Oficial de Dia do Quartel General do Primeiro Comando Aéreo Regional (QG COMAR I) e ainda nos “presenteavam” com algumas funções Extra-SRPV. Uma das funções com que me "presentearam" foi a de Chefe do Posto do Correio Aéreo Nacional (CAN), no COMAR I, embora por pouco tempo, mas, o suficiente para registrar e guardar alguns episódios...

Naquela época, havia muito movimento de passageiros e cargas para toda a Amazônia, partindo de Belém, inclusive para outras áreas do Brasil, e, a jurisdição do COMAR I abrangia toda a Região Amazônica. Por força dessa função, tinha que despachar diariamente com o Brig. CAMARÃO. Mas, acontece que eu tinha o expediente normal do SRPV/BE e depois o do Posto CAN, após o encerramento do primeiro; assim, a hora usual de sair do QG, muitas vezes, era depois das 22:00 horas.

Nesse serviço do CAN, pude observar algumas peculiaridades do trabalho do Brig. CAMARÃO. Como Chefe do CAN, eu tinha prioridade e acesso livre ao seu gabinete. Muitas vezes, os mais antigos (e todos eram mais antigos) me "congelavam" com o olhar, na sala de espera, pois, os despachos do CAN eram sempre prioritários e demorados. Ele deixava de despachar, fosse com quem fosse, e atendia o Chefe do CAN. Além do despacho, muitas vezes, tinha que "tapar os ouvidos" para não ouvir os "conselhos" que dava aos mais antigos. Lembro-me de um Ten.-Cel. (vou omitir seu nome) que treinava antes de despachar com o Brigadeiro... Simulava todas as perguntas possíveis do Brig. e arrumava respostas! Era gozado isso e muitas vezes ele estava tão entretido nessa preparação que nem percebia a presença das pessoas.
O Brigadeiro era centralizador, não havia dúvida. Não sei se era defeito ou virtude, mas, não confiava em ninguém e checava tudo. Eu levava a Relação de Passageiros, depois das 18:00 horas, e ele fazia questão de conferir o nome de cada passageiro na relação; muitas vezes excluía passageiros, outras vezes incluía e, mesmo depois de datilografada a nova relação, checava tudo novamente.
Quanto à carga, na época, a COMARA estava com muitos canteiros de obras, em toda a Amazônia, e ele, pessoalmente, determinava a carga para os aviões. Havia um serviço, na rotina do SRPV/BE, que se chamava PIMAM. Era o controle de todos os aviões militares que estavam pernoitando, na Região Amazônica, e era entregue, ao Brig. CAMARÃO, religiosamente às 18:00 horas. Com essas informações, ele podia "sequestrar" aviões para fazerem algumas "pernas" (trechos de voo) e, assim, poder manter os canteiros de obras com o material necessário para o trabalho. Era comum um C-130 pernoitar, em Belém ou Manaus, em viagem para outros locais, como também era comum a sua tripulação receber ordem de deixar a carga da aeronave e fazer uma ou duas "pernas" para o Brig. CAMARÃO, depois prosseguindo sua viagem. Muitos não gostavam desse estratagema, mas, ele conseguia tirar o máximo de proveito da disponibilidade dos aviões na área do COMAR I.
A ampliação e o asfaltamento da pista de São Felix do Xingu/PA, foram adiantados em mais de um ano, com um procedimento seu. Normalmente, para aquela área, somente era possível transportar caminhões, tratores, jipes e material de construção pelo rio Xingu, através de grandes balsas. Mas, isso era possível, somente em uma época do ano. Quando as chuvas diminuíam, os rios baixavam e os grandes barcos não podiam navegar. Tudo isso, além da morosidade, em uma viagem normal. E, somente, no ano seguinte, com a cheia dos rios, prosseguia o transporte.

Uma empresa americana fazia demonstrações de grandes helicópteros BOEING C-H47 CHINOOK, para operação na Amazônia, tendo ele convencido essa empresa a fazer uma operação real, para verificar a eficiência dos helicópteros.

Helicóptero ChinookUm BOEING C-H47 CHINOOK

A empresa topou! Ele conseguiu, com antecedência para o trabalho, liberar a verba junto a SUDAM. Todo o material foi transportado, de C-130 Hércules, para Cachimbo e de lá os helicópteros transportaram caminhões, jipes, tratores, pedaços de usina de asfalto e de concretagem, material de construção, tudo pelo ar... Não houve nenhum incidente ou acidente! Lógico, que a empresa aproveitou isso para melhorar a propaganda dos seus helicópteros. E assim, foi construída a pista de São Félix do Xingu, com antecedência.
Outra faceta do Brig. CAMARÃO: em Belém, ele não tinha motorista; não porque não existisse ou não fosse prerrogativa do seu Posto, mas, porque não queria... Dirigia uma caminhonete Dodge, geralmente em alta velocidade, e dispensava qualquer tipo de segurança, quando a guerrilha do Araguaia, na época, estava a pleno vapor!

Saia tarde da noite do QG, mas, por volta das 06:00 da manhã, já chegava ao trabalho e o Oficial de Dia tinha que recebê-lo. Seu lema era: “Se o Comandante está para o trabalho, às 06:00 horas, o Oficial de Dia também tem que estar!”. Até aí nada de mais... Acontece que ele fazia questão de, na chegada, cumprimentar o Oficial de Dia. Só que o seu cumprimento era de arrebentar os ossos da mão... Quando ele estendia a mão tínhamos que pegar firme para a mão não ser esmagada. Era o famoso cumprimento "quebra ossos"!
Como pessoa muito culta – falava vários idiomas – "forçava" os seus Oficiais a desenvolverem seus conhecimentos sobre os problemas brasileiros. Instituiu, na Guarnição da Aeronáutica de Belém, a “Hebdómada Áptera”, que poderia ser traduzida como “Semana sem Asa”, “Semana nos Calços”, ou “Semana sem Voo”. Uma vez por mês, geralmente de Segunda a Quinta, havia essa semana de palestras para todos os Oficiais da Guarnição. Em algumas situações, as palestras eram, também, realizadas para os Suboficiais e os Sargentos. Trazia palestrantes de vários locais do Brasil, a maioria Professores das Universidades, e, assim, quase todos os assuntos de interesse eram focalizados nessas palestras, sob vários ângulos. Na época, eu era estudante de Engenharia Agronômica e, através de uma palestra de um professor meu, o Brig. CAMARÃO ficou sabendo que eu era estudante universitário. O Professor, sem querer, acabou me “entregando”... Quando terminei o Curso, fui, gentilmente, "convidado" a fazer uma palestra sobre Agronomia. Não foi fácil! Ele não costumava cumprimentar os palestrantes, mas naquele dia, após a palestra, ele me cumprimentou, talvez como incentivo, pelo nervosismo e pela falta de experiência como palestrante. Além disso, também forçava os Oficiais a debaterem os assuntos das palestras; havia uma escala de debatedores e todos concorriam. Não é preciso dizer, que era a escala em que todos torciam para não entrar nela...

Hoje, vejo como isso era bom, pois, essa "forçada" fazia a gente aprender e treinar a participar de debates, hoje tão comuns, em todas as atividades.
A Escola Tenente Rego Barros, ainda hoje sob a supervisão do COMAR I, foi ampliada por ele, dotando-a na época do segundo grau, e fazia questão de, pessoalmente, verificar tudo... Muitas atividades noturnas existiam, inclusive curso de línguas, cursinhos, etc., para toda a guarnição e seus familiares. E era a sua esposa Sra. Marie-Sophie que se encarregava da supervisão geral, sempre presente, tanto nas atividades diurnas, como noturnas. Era uma escola modelo para Belém e quem sabe do Brasil! Seus alunos, quando terminavam o segundo grau (hoje, nível médio), faziam vestibulares, sem frequentar cursinhos, e era grande o índice de aprovação.

Outra preocupação sua era o trabalho de apoio à população, seja aos índios ou às pessoas menos favorecidas. Crianças e adultos, com lábios leporinos, eram apoiados por ele, aproveitando as viagens dos aviões da FAB para operações em Bauru/SP. A FAB tinha um convênio com um Hospital de lá... Era um trabalho espetacular, que ajudou muitas pessoas, em toda a Amazônia, principalmente da região do Acre.

Criou o trinômio FAB-MISSIONÁRIO-ÍNDIO, para apoio às missões religiosas católicas e aos índios da área amazônica. Onde hoje estão as instalações da COMARA, na Av. Pedro Álvares Cabral, ficava uma casa de índios, apoiada pelo COMAR I. Os búfalos andavam livremente pelo QG e essa eu assisti! O QG, na época, não tinha guarita na entrada. O Chefe de segurança do QG foi falar com ele, sugerindo a construção de uma guarita com soldados, para funcionar durante as 24 horas. Ele simplesmente olhou para o Oficial e disse que não precisava fazer isso, depois passou a mão na cabeça, era um tipo de cacoete que tinha, olhou para fora, na direção da entrada do QG e disse: – “É..., pode construir,... assim os soldados não deixam os búfalos saírem!”. Não é preciso dizer como o nosso Oficial de Segurança saiu do gabinete.
Outra história contada pela tripulação, foi sobre um carregamento de gêneros, doados por instituições, para a população de Altamira/PA. Ele estava no comando do C-47 que transportou os gêneros... O avião pousou e não tinha ninguém para descarregar o avião! A tripulação estava esperando alguém chegar, quando o Brig. CAMARÃO começou a descarregar o avião...

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Não é preciso dizer que o Copiloto, o Mecânico, e o Radiotelegrafista entraram também na festa!

Tinha a mania de não acatar certas ordens recebidas, em mensagens Radiotelegráficas, quando as considerava absurdas e não compatíveis com a autoridade que as expedia. Dizia: – “Alguém bateu esse rádio e alguém assinou sem ler!”. Em outras feitas, dizia que se regulamento fosse para ser cumprido “ao pé da letra”, não precisava de Oficiais nem de Comandantes, pois, bastava um Cabo para ler as ordens e tudo estava resolvido... Parece absurdo, mas, a verdade é que os regulamentos, decretos, as leis, e até a Constituição não abrangem todas as situações e alguém tem que decidir, nem que seja no STF.

Não gostava de badalações na sociedade! Ia a recepções e organizava recepções no QG, quando não havia alternativa... Era avesso a aparecer nas colunas sociais! A Câmara Legislativa do Pará concedeu-lhe o título de cidadão paraense e ele não foi recebê-lo. Numa das "Hebdômada Áptera" – 11 Mar 1975, o Deputado Oswaldo Melo foi convidado a fazer uma palestra e, depois da mesma, juntamente com outros deputados, fizeram uma Sessão Especial da Câmara, no QG, para entregar-lhe o Título.

Título Cidadão

Era assim, o Brig. CAMARÃO!

Aprendi muito com ele. Com certeza existem muitos outros relatos envolvendo o seu trabalho, a sua personalidade, a sua maneira de ser... Nem todos concordavam com o seu tipo de trabalho, mas, todos reconheciam o mérito de grande idealista que era e realizador de obras.

Hoje se fala em povoar a Mata Atlântica e outras áreas, com sementes jogadas de avião ou de helicóptero. O Brig. CAMARÃO e o Brig. PROTÁSIO (falecido recentemente) já faziam isso quando sobrevoavam a Região Amazônica, há mais de 40 anos atrás, nas regiões de cerrado. Para quem não conhece bem a Amazônia, grande parte dela é de cerrado...

Em todos os locais em que foi Comandante, ampliou as instalações da Unidade, fazendo despesas, e sempre dizia que a sua função era trabalhar e as contas deveriam ser pagas pelo Governo, através do seu Ministro. Quando foi Comandante, em Barbacena, ampliou a EPCAR ali localizada. Em Belém, remodelou a Escola Tenente Rego Barros, ampliou a COMARA e deu-lhe uma condição operacional-industrial. Com barcos grandes, balsas, e caminhões, não dependia do apoio de outras Organizações. Quando foi para a Reserva, trabalhou na instalação de uma Escola Modelar Profissional, na UNICAMP, em Campinas/SP.
Quando fiz a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EAO), em meados de 1986, tive oportunidade de assistir um vídeo da sua palestra, realizada para a Turma anterior, que o homenageou, e pude relembrar muitos fatos da Amazônia. Dos seus relatos de voos noturnos, deixando o SALVAERO em polvorosa, e de suas peripécias em arrumar verbas para os projetos que desenvolvia. De uma feita, decolou com um BEECHCRAFT, de Tabatinga/AM para Belém/PA, em voo noturno, tendo como copiloto o Cel. Av. Boanerges, .
O seu falecimento, em 2004, representou o desaparecimento de mais um líder da nossa Força Aérea, entre tantos que se foram...

Hoje, seu nome é o do Auditório e Ginásio de Esportes da Escola Tenente Rego Barros, em Belém, que na época era chamado de "Pinicão"... Não é preciso dizer por quê!

Dimitrie Netchet

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SOBRE O AUTOR: Dimitrie Nechet - Major Especialista em Meteorologia da Aeronáutica Refm – Nascido em 08 de agosto de 1938, em Quatá/SP. Ingressou na Aeronáutica, em 01 de março de 1957, na Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá/SP, formando-se 3º Sargento Meteorologista (3S QAT MT), em julho de 1958. Como 3S QAT MT, serviu em Vitória/ES (19 Ago 1958 a 27 Mar a 1962), e, depois, sempre na Amazônia: Belém/PA (16 Abr 1962 a 02 Jul 1962), Manaus/AM (19 Jul 1962 a 28 Set 1964), Jacareacanga/PA (28 Set 1964 a 06 Nov 1964), como Observador Meteor. Promovido a 2º Sargento QAT MT, em 07 Nov 1964, serviu em Jacarecanga (07 Nov 1964 a 24 Mai 1965), Manaus (24 Mai 1965 a 12 Nov1965), Belém (12 Nov 1965 a 26 Jun1969), e São Luís/MA (15 Ago 1969 a 23 Mar 1971), como Observador Meteor, Chefe de Estação Meteorológica, e Chefe de Núcleo de Proteção ao Voo(NPV). Declarado Aspirante-a-Oficial Especialista em Meteorologia, na Escola de Oficiais Especialistas e Infantaria de Guarda, em Curitiba/PR, em 14 de dezembro de 1972, serviu no Serviço Regional de Proteção ao Voo de Belém (SRPV/BE) – de 12 Mar 1973 a 29 Set 1989, onde foi Chefe da Seção do Pessoal (21 Mar 1974 a 13 Fev 1980), Chefe de Estação Meteorológica e Radar Vento do DPV de Belém (29 Fev 1980 a 14 Ago 1980), Chefe da Seção de Meteorologia e Climatologia(18 Ago 1980 a 13 Jan 1986), Chefe da Divisão de Operações (18 Jan 1985 a 13 Jan 1986), Chefe da Seção de Instrução e Atualização Técnica-SIAT (13 Jan 1986 a 29 Set 1989). Passou para a Reserva Remunerada, em 29 Set 1989, no Posto de Major. Pesquisou e elaborou o livro Histórico do SRPV/BE do período de 30 Abr 1942 a 31 Dez 2003. Formou-se Engenheiro Agrônomo na então Faculdade de Ciências Agrária do Pará (FCAP), hoje Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), em 30 Nov 1974. Possui o curso de Especialização em Meteorologia Tropical pela UFPA, concluído em 27 Fev 1976. Professor Adjunto da UFPA de 15 Ago 1978 a 08 Ago 2008, quando foi “premiado” pela compulsória. Primeiro Meteorologista Operacional do Curso de Bacharel em Meteorologia, sendo pioneiro do início desse Curso. Foi, também, coordenador e instrutor do Curso CG015/115 Técnicas de Instrução da UFPA. Autor do livro digital “2068 – Missão e Heroísmo na Amazônia”, produzido em parceria com José D. Novais Patriota e constante da Biblioteca Digital do website www.reservaer.com.br. Também, segundo autor do livro “Instrumentação de Trabalhos de Conclusão de Curso, para Orientação de Alunos de Graduação do Instituto de Geociências da UFPA.

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