No dizer do Brigadeiro CAMARÃO, o neologismo “amazonidense”, criado por ele, aplica-se àquela pessoa que, não sendo amazonense (nascida no Estado do Amazonas) nem amazônida (nascida na Amazônia), apaixona-se pela Região Amazônica, e nela vive, por longo tempo, cooperando para o seu desenvolvimento.

Ninguém melhor do que ele, portanto, que nasceu no Rio de Janeiro, em 1916, e serviu a Aeronáutica por mais de doze anos, em Belém, para receber esta naturalidade com que, como elogio, ele se referia aos seus auxiliares mais capazes.

Com o seu falecimento, ocorrido no dia 7 de abril do corrente ano (2000), em Campinas (SP), não só a Força Aérea Brasileira, como também a Amazônia brasileira perderam uma de suas relíquias de grande valor, dentre os grandes vultos que legaram parte de sua vida militar a esta Região, que ele procurou desenvolver e integrar, como forma de engrandecimento da nossa Pátria.

É de justiça, portanto, que na Força Aérea Brasileira, bem como na Amazônia brasileira seja relembrada a figura exponencial que por aqui passou (Tenente, no 7º Corpo de Base Aérea, Major e Tenente-Coronel, na Base Aérea de Belém, Tenente-Coronel e Coronel, na Chefia do Estado-Maior da 1ª Zona Aérea, e, Brigadeiro, Major-Brigadeiro e Tenente-Brigadeiro, no Comando da 1ª Zona Aérea/Primeiro Comando Aéreo Regional), deixando marcos indeléveis na educação, na saúde, nas comunicações, no transporte aéreo, na integração territorial e populacional, e na defesa da Amazônia brasileira, trabalhos estes encobertos pelo manto do anonimato, como era de seu feitio pessoal.

Falar sobre os trabalhos realizados necessitaria de livros a escrever, razão de me deter apenas em alguns aspectos, dentre os muitos que podem ser escolhidos.

Inicialmente direi que os trabalhos desenvolvidos por CAMARÃO, na Amazônia brasileira, tiveram seu aprendizado na sua passagem como Tenente, em 1940, pelo 1º Regimento da Aviação, no Campo dos Afonsos (Rio de Janeiro), berço do Correio Aéreo Militar, antes da sua chegada a Belém.

Ali o Marechal-do-Ar Eduardo Gomes – Patrono da Força Aérea Brasileira, quando ainda Major do Exército e então Comandante do Grupo Misto de Aviação, em 1931, implantou a filosofia, talvez única no mundo, de utilizar o avião militar não só para combater um inimigo externo, mas, também, contra o pior dos inimigos internos de um país – o Subdesenvolvimento – agigantado pela imensidão do nosso território e pelas dificuldades em levar o Progresso através de florestas, montanhas, rios, lagos e alagados, utilizando apenas os transportes de superfície.

Era a compreensão de que na Aviação estava o caminho para o desenvolvimento do interior do Brasil, o que muito concorreu para a criação do Ministério da Aeronáutica, em 1941, sob a Doutrina do Poder Aéreo Unificado, quando todas as atividades aeronáuticas ficaram sob sua responsabilidade. Como resultado, o Transporte Aéreo e a Construção de Aviões atingiram o nível de Primeiro Mundo, disputando, em igualdade de condições, com as maiores potências militares e econômicas, seja no âmbito doméstico ou internacional, em evidente contraste com os demais transportes marítimo, fluvial, rodoviário e ferroviário, ou, com as montadoras da indústria automobilística, cujos projetos vêm prontos do exterior.

Com tal visão, na função de Chefe do Estado-Maior da 1ª Zona Aérea o Ten.-Cel. Av. CAMARÃO criou, em 1958, o Correio Aéreo Nacional da Amazônia (CAN/AM), com sede em Belém, para complementar as linhas do Correio Aéreo Nacional (CAN), com sede no Rio de Janeiro (Campo dos Afonsos e Base do Galeão), cujos aviões não podiam operar em grande número de localidades da área, também necessitadas de apoio. A programação do CAN/AM previa 14 linhas que se distribuíam pelas áreas mais carentes e remotas da Amazônia, atendendo 93 localidades, em percursos que totalizavam 67,271 km, com frequências semanal, quinzenal ou mensal, e utilizava os aviões anfíbios (Catalina) nas áreas hídricas, e os aviões terrestres (C-47), à medida que os aeródromos iam sendo construídos.

Na ocasião, foram criados, também, os Trinômios FAB/MISSIONÁRIO/ÍNDIO e FAB/FUNAI/ÍNDIO, como ajuda aos Missionários religiosos e à FUNAI na valorização do índio brasileiro como ser humano, procurando, através do apoio de saúde, educação e sentimento de brasilidade, tirá-lo do estado primitivo em que vive, dando-lhe oportunidades como a qualquer outro brasileiro nascido na Civilização. Esta ideia baseava-se em exemplos anteriores, tais como, do Marechal Rondon, descendente de índios Bororo, Terena, e Guamá – do Mato Grosso, galgando todos os postos da carreira militar no serviço ativo do Exército, até o generalato, tornando-se, pelas qualidades demonstradas, Patrono da Arma de Comunicações de sua Força Singular. Outro exemplo, no Pará, foi o Dr. Aracy Barreto, descendente de índios Apiacá, que chegou a Reitor da Universidade Federal do Pará.

Os Trinômios com os missionários salesianos da Prelazia do Rio Negro, dirigidos pelo Bispo D. Pedro Massa, muito ajudaram no trabalho em suas Missões nas áreas indígenas, onde já haviam construído vários colégios (internatos) e hospitais, com ensino regular e profissionalizante, para moças (artesanato e doméstico) e rapazes (agrícola, pedreiro, carpinteiro, marceneiro, motorista, mecânico e outros), para melhoria de suas condições de vida; bem como, possibilitando sua ascensão a níveis superiores, razão da existência atual de índios ou seus descendentes nas profissões de professor, padre, oficial superior das Forças Armadas, e outras.

A experiência, com os Frades Franciscanos, alemães, de criar um Trinômio na fronteira com a Guiana Holandesa, fez crescer a pequena Aldeia Tirió, com 50 índios, sem menores de 10 anos, em 1958, para mais de 500 índios, com 160 crianças e cerca de 400 cabeças de gado vacum e búfalos, além da Aldeia Cuxaré, com mais de 100 índios, em 1980.

Como Comandante da 1º Zona Aérea/Primeiro Comando Aéreo Regional (1971 a 1976) duas realizações se destacam, dentre as numerosas de sua autoria: 1- A pequena Escola Regimental, chamada Escolinha do Parque (porque, durante muitos anos, a maioria, dos poucos alunos que nela estudavam, era composta de filhos de funcionários civis do Núcleo de Parque de Material Aeronáutico de Belém), foi transformada em Educandário comparado aos melhores do 1º Grau (1ª a 8ª séries) do país, com 2.500 alunos em turnos matinal, vespertino e noturno, dotado de Laboratório de Línguas, Biblioteca, Museu, Ginásio para Esportes e Educação Física, e Auditório para Conferências, Cinema e Teatro. Foi escolhido o nome Tenente Rego Barros, em homenagem a um seu colega, paraense, que faleceu em acidente de hidroaviação, quando ambos serviam no 7º Corpo de Base Aérea, em 1941. 2 - Como Presidente da Comissão de Aeroportos da Região Amazônica - COMARA, elevou o nível de Instrução, de Técnica, de Eficiência, de Amplitude de Ação, com ênfase aos serviços de pavimentação, para permitir que as capitais e cidades importantes da Amazônia tivessem ligação direta com o Brasil e com o Mundo, através de aviões modernos, velozes, confortáveis, transportando mais de 100 passageiros, pousando, a qualquer hora, em aeroportos de elevado padrão em suas condições estruturais e operacionais, o que antes era limitado a pequenos aviões que pousavam só em dias não chuvosos, numa rua da cidade, ou num rio mais próximo. Eram exceções apenas Belém, Manaus, São Luiz e Amapá, construídos durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), pelas Forças Armadas Americanas.

Estas são, de um modo sucinto, algumas das ações de João Camarão Telles Ribeiro nesta Amazônia, onde ele empregou toda a sua potencialidade, todo o seu esforço e parte da sua vida militar, o que não deve ser esquecido, pois ele trabalhou em nome da Aeronáutica, para o engrandecimento da nossa querida Pátria, o Brasil, que nós, militares, juramos defender "com o sacrifício da própria vida".

Ten.-Brig.-do-Ar Refm Protásio Lopes de Oliveira

Belém/PA, maio de 2000

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Artigo publicado na Revista Aeronáutica Número 226/2000 (órgão Oficial do Clube de Aeronáutica).

Fotos: Laboratório Hess (arquivo do Brig. Int. Aer. Refm Araguaryno Cabrero do Reis).

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